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domingo, 2 de maio de 2010

Sonhos


Acordou assustada achando que o despertador não havia funcionado. Esqueceu-se que por mais um dia não precisaria dele. Conferiu a hora. Na mesa de cabeceira um porta-retrato de madeira denunciava um sorriso que ela mesma não via há tempos. Ao lado, um bloco de anotações rabiscado. Tarefas não feitas, traços geométricos e o nome repetido inúmeras vezes como num mantra. Levantou-se e abriu a janela. Nuvens embaralhadas formavam desenhos incompreensíveis no céu. A xícara do café da manhã do dia anterior continuava na mesa do computador dividindo espaço com farelos abrigados por formigas agitadas.
Jogou-se na cama novamente desejando que ela balançasse como se estivesse em um colchão d’água. Olhou o relógio mais uma vez. Quis mexer nos ponteiros, acelerá-los, voltá-los. Olhou para o ventilador, rápido e seguro, com rotações firmes e quase silenciosas. Olhou fixadamente para ele, depois fechou os olhos e se viu num daqueles brinquedos de parque de diversões, rodando, rodando, rodando constantemente em movimento eterno. Quis ser a nuvem. Quis ser a formiga. Quis ser o ponteiro. Quis ser o ventilador. Quis ser ela mesma na foto com sorriso largo. Quis ser o movimento. Quis dormir novamente para sair da inércia porque quando sonhava não podia tocar o chão. Nos sonhos ela podia voar e ser mais do que formiga, ventilador e ponteiro. Ela podia ser a nuvem,e junto com outras nuvens ser incompreensível e admirável. Nos sonhos ela podia tocar o céu.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Retrocesso


Brindo ao passado, o único tempo que não se transforma, que não se permite mudar. É arbitrário e definitivo. Talvez o único tempo que exista. Está na história contada no dia-a-dia, nos livros, no fragmento de tempo que se constrói em memória. Para se falar do presente também se usa o passado porque para uma ação ser contínua, ela começou (olha ele aí) em um dado momento. Brindo ao passado porque o que se é está intimamente ligado ao que se foi. Brindo ao passado porque o presente tem uma ínfima duração e esse tal de futuro só existe na nossa cabeça. Brindo ao passado porque ele é cumulativo. E no final é só ele que nos resta. Para os que vão, para os que ficam, a vida continua em forma de lembrança.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Reflexão




Sempre quis me ver, mas não no espelho. Queria ser capaz de me enxergar fora do meu corpo. Não falo de experiências espirituais. Minha alma e meu corpo não se dividiriam. Eu estaria completa vivendo e observando a mim mesma. Comportamentos e ações são sempre movidos por olhares alheios. Queria ser alheia a mim por um momento.
A nossa vida é sempre mediada pelos outros. Vemos mais os outros do que nós mesmos já que não somos capazes de andar seguindo nosso próprio reflexo. Acho que me conheceria melhor se pudesse me ver mais. Se pudesse me ver na hora em que as coisas acontecem. O meu olho fechando ao se encontrar com outra boca. Ele abrindo e ficando arregalado ao final do beijo. Queria ver a minha face preguiçosa no momento em que o relógio desperta, ainda com a luz apagada. E o modo como meus cílios colam quando encosto a cabeça no travesseiro. A cara de boba quando tenho frio na barriga e o olhar perdido quando meus pensamentos começam a agir. Queria me ver de costas. O modo engraçado de andar correndo. Sei que vídeos já me mostraram algumas dessas vivências, mas queria o tempo real. Talvez seja por isso que inventaram o amor. Já que não podemos nos observar nos pequenos detalhes, esta experiência privilegiada fica para os outros. E talvez amemos nos outros o que não vemos em nós. É claro que ver alguém andando na rua não é nenhum privilégio, mas compartilhar a vida de perto é raro. Tudo bem que em transportes públicos lotados somos postos forçadamente próximos uns dos outros e diminuímos a distância apropriada para convívio social entre estranhos. Mas, no amor é diferente. A motivação é espontânea. Ver os olhos de perto, um sorriso se formando, as lágrimas escorrendo. A peculiaridade de cada gesto.Vemos no outro o que não podemos ver em nós. E nos permitimos ser vistos como não nos vemos. Dessa cegueira pessoal temos a melhor visão: o olhar do outro emitindo nosso reflexo. Talvez este seja nosso melhor espelho.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Dor


Da última vez que você veio, previ sua chegada
Não pedi que fosse embora
Não exigi nada
Se me queria como companhia
Pela primeira vez, seja bem-vinda
Não te venero, nem te nego
Me faça apenas me sentir mais viva

Hoje você tem espaço aqui
Me deixe à flor da pele
Quem chora não tem apatia


Não anseio por suas visitas
Estaria sendo hipócrita
Mas arranjei um lugar para elas
Sei que uma hora estará de volta

Hoje você tem espaço aqui
Me deixe à flor da pele
Quem sofre não tem apatia
Quem chora volta a sorrir

domingo, 6 de dezembro de 2009

Sem saída



Códigos e convenções
Nada puro, nada pleno
A matéria reduz a essência
Quando vem para o mundo real
Perde o real
Falar, tocar
Gestos, palavras
Bem quereres limitados

Num filtro de humanidade
Sentimentos dissolvidos
Nas bordas
A verdade retida
O sobre-humano
Intransponível

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Disfarce




Já deixei de escrever por ouvir dizer que é imaturidade deixar-se aparecer nas palavras
Tentei fugir de mim para oferecer às letras algo que não fosse meu
Tentei enganá-los
Usei terceira pessoa, vesti roupa camuflada e no final das contas dei de cara com cada personagem usando a minha face

domingo, 1 de novembro de 2009

Dúvida

Olhar o tempo e reconstruir espaços seria alcançar a plenitude
Visitar o passado e viver de novo cada momento...
Será que a sensação da experiência repetida é a mesma da nostálgica lembrança?
Ou será que a nossa remota memória se alia à imaginação para criar um universo hiper-real?

domingo, 25 de outubro de 2009

Arpoador



Ah! Porra! A dor
A pura dor
Apura a dor
Sem pudor
Por amor
Ah, por favor
O pôr do sol acabou
Deixa a verdade se impor
Puta que pariu!
A dor não partiu
Pariu o apartar do meu
Apartamento
Sofrimento.



* Registro de uma tarde em Ipanema
-Mariana Moreno e Thaís Reis

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Descoberta


Foi em uma tarde gelada, envolvida por papéis amassados e por lembranças esquecidas.
Foi em um desses dias vazios que se enchem de nostalgias e palavras não ditas.
Foi mexendo no mofo, em sorrisos amarelados, em beijos não dados, em textos sem remetentes. Foi entre panfletos, notas fiscais, entradas de cinema. Foi entre saudade e indiferença. Foi ali dentro de si mesma que percebeu a inutilidade de se buscar tanto lá fora.
Foi por rir do passado, que começou a sorrir para o futuro, e em vez de encontrar a felicidade, percebeu que era ela própria.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O que de nós ainda persiste...



Queria por um dia sentir o que você sente

E em sua mente me enxergar, mesmo que de relance

Queria saber qual imagem que ficou

Que sorriso, que lembrança...

Queria ter a certeza de que eu estaria ali

Ainda que por um instante

Queria descobrir que a saudade não é só minha

Para poder compartilhá-la e fazê-la bela e não dolorosa

Queria saber o quanto de mim há em ti

Porque se nada mais houver

O que de ti há em mim não poderá ser mais nada

A não ser....

Poesia

quinta-feira, 2 de julho de 2009

(Des) abrigados


Ele espera pela mãe e afirma sorridente que ela voltará um dia para buscá-lo. Ele faz parte de um grupo de “Eles", que ganharam uma nova família. Eles formam uma família gigante, mas que por serem tantos não se sabem os nomes. Eles moram na mesma casa, que sendo de todos, acaba não sendo de ninguém. Eles são aqueles de quem nossos olhares fogem no meio das ruas, aqueles que nos dão medo, mas que quando são postos entre quatro paredes, nos fazem cair em compaixão. Eles são bebês enrugados que contam as horas pelas refeições e que de tanto descansarem durante o dia, se debatem na cama procurando o sono pela noite. Eles choram como crianças birrentas. Eles sorriem com a doçura mais terna como quem descobre o amor. Eles são diferentes. Eles não gostam de ser fotografados ali, exilados. Eles não se intimidam com as fotos. Eles gostam de serem olhados. Eles têm lembranças. Eles têm saudades. Eles têm memórias que preferiam esquecer. Eles têm desejos que não conseguiram viver. Eles vivem se despedindo uns dos outros. Eles apenas vêem os leitos vazios. Eles já perderam tudo e por não terem mais nada, não esperam muito da vida. Eles por não terem mais o que esperar da vida, já não temem a morte como visita.
Eles somos nós amanhã. Nós somos aqueles que esperam um melhor destino,um melhor abrigo.


Foto tirada em uma visita ao abrigo Luz de Escol,em Nova Iguaçu

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Palavreando


Sempre gostei de brincar com as palavras, fazer trocadilhos idiotas e descobrir novos significados para velhos significantes. Talvez isto seja uma motivação característica
daqueles que escolheram fazer do texto e das letras o seu ganha pão. Apesar desta tendência, deixo passar várias sacadas e de repente me pego surpresa falando sozinha: como é que eu nunca havia pensado nisso? Para dar um exemplo da minha falta de atenção, nunca tinha percebido que preocupação, vem de pré-ocupação, ou seja, a ocupação prévia com alguma coisa. Só me dei conta disso quando alguém com um sotaque nordestino acentuou o pré e eu achei engraçado. Talvez esta dificuldade de entender o significado das coisas seja uma barreira para quebrar paradigmas. Desde que eu me entendo por gente a preocupação está aí, mas foi preciso sair do carioquês para eu notar o sentido dela. Em um almoço de família no domingo, minha avó me fez perceber algo que eu nunca tinha me tocado. É um raciocínio muito simples, mas que na hora me fez refletir. Questionando sobre os relacionamentos de hoje em dia, ela disse não entender o porquê de usarem a expressão “ficar”. Eu até tentei dar uma explicação, mas segundo ela minha descrição tinha muito mais a ver com a palavra “passar”. Você passa por um, passa por outro e quase nenhum deles fica. É lógico que não faria o menor sentido se depois da night que eu saí do zero a zero eu falasse para uma amiga: “Passei pelo fulano ontem”
, mas a percepção da minha avó realmente mexeu comigo. Vai ver que esta minha paixão pelas palavras tem alguma relação com herança genética. Minha avó realmente incorpora o que as letrinhas estão querendo dizer. Certa vez, ela surpreendeu um de meus primos quando ele estava em processo de alfabetização. Se aventurando com o lápis na mão esquerda, ele ouviu: “Menino, está errado. O próprio nome já diz. A mão certa para escrever é a direita”. Hoje meu primo é destro. Vai dizer que as palavras não tem poder?

terça-feira, 19 de maio de 2009

Sobre aquilo que já foi notícia


Duas janelas anônimas

Abre, fecha

Corte na tela

Abre, fecha

Passa um sequestro

Duas janelas públicas

Abre, fecha

Passa uma criança

Abre, fecha,

Passam mais de 100 horas

Duas janelas em São Paulo

Abre, fecha,

Fecha, fecha

Fecham-se

Duas vidas

domingo, 3 de maio de 2009

Na hora do jogo


Faz tempo que não sei por onde você anda
Nem ao menos ouço a sua voz
Mas também de que ela me serviria se as palavras não seriam mais as mesmas?
Mesmo juntos, me acostumei com sua ausência
Mas gostava de imaginar onde você estava, o que estava fazendo
Às vezes por ciúme e insegurança, às vezes apenas por saudade
Depois eu saberia se minha imaginação estava certa
Ficaria feliz ou ficaria triste
Agora fico apenas nostálgica
Com a dualidade da palavra:
Tristeza e alegria aglutinadas
Entre memórias e apostas
A certeza só me vem na hora do jogo
Posso ver você aos berros quando o Flamengo lidera a partida
E chego a tapar os ouvidos por causa de tantos palavrões quando o time adversário empata
Ouço sua voz na vitória, nas músicas da torcida
Não sou fã de futebol, mas às vezes dou uma espiada só para sentir o prazer de ver o mesmo que você
Já que nossos olhos não podem mais se encontrar
Que eles olhem na mesma direção de alguma forma
Por aproximadamente 90 minutos eu faço idéia de como você se sente
Sei se vai passar a semana bem ou emburrado, colocando desaforos no MSN
Depois do jogo, não sei se você sai do estádio ou sai da sala
Seja onde for, mesmo que você não saiba, espero você silenciosamente para a próxima partida.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Espelho


Você não é o seu nome
Você não é o que consome
Você não é o que veste
Muito menos o que investe
Dispa-se do que diz ser concreto
É tudo abstrato, eu alego
Papéis são rasgados
Tecidos amassados
O verdadeiro valor das coisas está na nossa mente
O que você tem é o que você sente
O amor que você dá
O ódio que transmite
A esperança que aspira
O que realmente difere os seres humanos
É imperceptível aos olhos
Chega de conceitos ilusórios
Veja tudo além dos reflexos
A vida passará a ter mais nexo
Você não é O QUE quiser
Você é QUEM você quiser
Não é algo, mas alguém
Abaixo às mentiras
A completa verdade jamais será dita
Pois quando esta for reproduzida
Já será inibida
Nada é aquilo que se vê
Nada é aquilo que se lê
Nada é aquilo que se ouve
Tudo é aquilo que se vive
Encare o espelho
E enxergue a sua verdade
Você é o que sente

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Visitas



Hoje a solidão veio me visitar
Não quis abrir a porta, mas desde ontem ela insiste
Olhei pela fresta da janela, fingi que não estava
Mas derrubei um vaso de planta e ela soube que eu estava lá
Sem cerimônias, abri a porta e não consegui recebê-la bem
A teimosa nem se importou e se apoderou do meu lar
Ficou tão à vontade que chamou alguns amigos para lhe fazer companhia
De repente, chegaram à minha casa o medo, a tristeza e a desesperança
Disseram que seus antônimos haviam ido passear sem data marcada para retorno
Tentei gritar e pedi que voltassem logo, mas a algazarra das visitas era tanta que a coragem, a alegria e a esperança não puderam me ouvir
Sem poder lutar, aceitei minhas companhias, mas exigi que ao menos pudessem se calar
Entramos em um acordo
Meu abrigo só lhes acolherá por um dia
Após isso, prefiro desfrutar de minha própria companhia
E preparar o terreno para a melhor das visitas
Aquela que geralmente nos pega desprevenidos
Não pede licença
Mas nos faz escancarar as portas
E esconder as sujeiras embaixo dos tapetes
Desculpe, solidão
Mas o AMOR pode chegar a qualquer momento
E ele, seja passageiro ou eterno,
Merece todas as regalias de uma fiel anfitriã.

domingo, 19 de abril de 2009

Pelos trilhos


Essa imensidão. Esse vasto de gente que não sei de onde vem e para onde vão.
Quantas caras sem expressão. Quantos risos amarelos. Quanta vitalidade. Quantas gargalhadas fora de hora. Quanto choro de criança. Quanta tristeza. Quanta alegria.
Quanta gente apressada. Quanta gente descansada. Quanta correria.
Quanta bolsa. Quanto banco. Quanta falta de espaço. Quanto desembaraço.
Quanta paquera. Quanto som. Quanto rastro de vida. Quanta espera. Quanta história...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

CotidianaMENTE

Hum...Aí ele chegou mais perto...e ...Ah, não...Cara..Só mais cinco minutinhos. Não vou. Vou. Não,não. Vou!.Olha bem para minha cara. Um monstro! Também este espelho não favorece. Mostra até a marca da minha primeira espinha.Ihhh...hoje é o dia de levar a xerox para a aula de História...Putz...esqueci de comprar shampoo. Vou ter que colocar água nessa m....Toalha nova...não adianta nada mesmo...Só café para me manter em pé essa hora.

Onde eu coloquei essa tarraxa....Hoje é o dia da greve do ônibus. Será? Será que ele vai me ligar mais tarde? 5, 6, 7, 8! Nossa que saudade da academia. Que inveja dessa gente. Olha o short daquela mulher. Esse mundo ta perdido mesmo. Nossa, quanta celulite...Um refrigerante, por favor! Pô, por que ele insistiu com aquela história? Nossa, ela faz Engenharia. Ta feita na vida. Tenho que trocar de celular. Que horas que minha tia vai fazer o exame mesmo? Vou comprar um chocolate. Que se dane a montanha de bombons que eu fiz questão de deixar em casa. Tenho que passar lá na padaria... E essa crise , hein...logo agora que eu estava achando que descolar um emprego novo..Noooosssaaaa...Música irada. A minha nova preferida. Unhas mal feitas...Esse esmalte não presta..Vai ver que é a manicure. Vai ver que ele esqueceu que disse que ia ligar hoje...Devia estar bêbado. Olha só a Lurdinha. Sabia que ela ia aparecer com essa cara hoje. Coitada. Aquele desgraçado deve ter traído ela de novo. Que muro é esse na favela?Aii, não empurra...Gatinho,hein

Será que isso vai adiantar mesmo? Hum...Greve de ônibus? Vou de trem..Ai não, vai que sobra uma chicotada pra mim...Ih...hoje a Maya vai fazer o exame. Nem uma mensagem daquela criatura. Elevador apertado. Ai...nao estudei nada. Putz...a xerox..Já sei o que eu quero: um sanduíche. Não disse? Eu falei para você contar logo. Oi amor.Nem estava esperando você ligar. Que surpresa boa. Cineminha? Não vai dar ... Tenho que estudar. Ai que cansaço. Palhaçada essa de ficar fazendo joguinho.Que foto bonita. Nunca usei essa calça. Banhooo....essa toalha...quando vai ficar velha, hein...Huummm...escova de dente e cama...

Ufa!!!até que enfim essa mente descansa.

Zzzzzzzz*****

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Registro de uma pseudo-paquera

Tomou o ônibus com a roupa molhada pela chuva. O ar condicionado do veículo fez com que sentisse mais frio. A gripe a esta altura estava redobrada. Os longos cabelos amenizavam a ausência do casaco sobre as costas. Apesar de ter tido um dia estafante, sentia-se feliz por ter cumprido todos os compromissos da agenda. Encolhida encostada na janela, precisou se abaixar para pegar uma moeda que havia caído. Ao levantar, sentiu cócegas no nariz e de repente se pegou fazendo as típicas caretas que ensaiava antes do espirro sair. Com a língua para fora, seu olhar o fitou observando-a. Sem graça por tê-la surpreendido, ele ajeitou os óculos e voltou a ler a xerox que carregava. Já não era mais tempo. Nas folhas, as linhas se perdiam. No frio, o casaco tornou-se dispensável.
Dividiram momentos de cumplicidade telepática. Os mesmos questionamentos, as mesmas dúvidas que nunca seriam indagadas. Ao chegar à estação final, combinaram passos que os deixavam lado a lado. Sequer uma troca de olhar. Ele não era nenhum pouco do tipo que ela dizia admirar. Ele nunca havia se aventurado em uma paquera tão cotidiana. Ela apertou o passo e teve esperança de vê-lo ao dar aquela olhadinha para trás. Ele já havia parado em outra marcação da plataforma do metrô. Ela continuou andando sorrindo sem ao menos saber do que achava graça. Ele continuou a leitura. Dessa vez, concentrado. Ela chegou em casa, tomou banho e jantou. Ele foi dormir pensando nela. No dia seguinte, tudo voltou ao normal. Podem se cruzar novamente por aí, mas não saberiam reconhecer um ao outro. Se olharam muito rápido, apenas no relance da careta do espirro. Foi uma situação inesquecível, mas efêmera como quase tudo desse dia-a-dia,como as pessoas que entram e saem dos vagões pela cidade...

quinta-feira, 12 de março de 2009

Dia dos namorados


Estou preparando aquela massa que você adora. A cara está boa e o molho está igualzinho ao da sua mãe. Tudo bem, igualzinho não está. Mas para quem só tinha experiência com miojos, confesso que evoluí bastante. Para a sobremesa, eu comprei aquela mousse de chocolate do restaurante que fica aqui perto do prédio. Aquela que você sempre compra quando esta vindo para cá. Eu tentei reservar um jantar em algum lugar especial, mas sinceramente, não estava afim de ter que olhar vários casais à nossa volta. Queria ter a sensação de um momento só nosso, como se o dia não fosse dos namorados, mas sim o nosso dia. O seu presente eu mesma fiz. Acho essa data uma convenção para afirmar o consumismo, mas também não gosto da idéia de passá-la em branco escondendo o meu amor sob protesto. Já que escolheram essa data para simbolizar, compactuarei com a sociedade , mas não completamente. Não fui tentada por nenhuma propaganda, não fiz gastos suntuosos e não comprei o cartão mais romântico da loja. Meu presente será um caderno com nossas melhores fotos, nossas melhores palavras, nossas melhoras músicas.
Tudo aquilo que representa nossos melhores dias.
Estou usando aquele vestido preto do aniversário da sua irmã. Roupa repetida com a intenção de repetir aquela sua cara de bobo quando me viu usá-lo pela primeira vez. Talvez eu te surpreenda e talvez eu seja surpreendida por uma reação ainda mais intensa quando você reparar o resultado das minhas idas a academia. Sei que a gente se vê toda semana e que você já até elogiou , mas preciso admitir que este vestido me caiu bem. Ainda mais esta noite.
Não vejo a hora de te beijar e te sentir. Cada vez que a gente se despede a saudade me dá a certeza de que o que mais quero estar com você de novo o mais breve possível.
Não demore a chegar. Nosso jantar está pronto, a mousse está gelada e estou ansiosa para te ter.... mais uma vez.