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sábado, 22 de agosto de 2009

Trova de Ave-Maria.

Para quem já pensa sol,
Creio, vá precipitar.
Pense lua muito tempo,
Doze horas inda há.





Foto: http://www.astrosurf.com/carreira/img/lua/lua_nascer_20060809_2022b.jpg

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Órgazo¹.

A rua na qual localizava-se a sua casa é daquelas em que ainda não há iluminação total, na parte da noite. Em seu início, sim, alguns postes, mas eles limitam-se a estar, justamente, entre o começo do caminho e o fim da entrada pertencente ao cemitério que nela existe. Ou seja, por mais estranho que isso possa parecer incialmente, ao longo de 500 metros, apenas 100, equivalentes ao lugar onde comumente se deposita aversão e medo, possui luz elétrica. Nos outros 400 metros, há apenas resquícios de luz dos postes da viela localizada do lado oposto; há um rio que transforma o que seria uma rua, em duas.

Tudo isso, inicialmente. Após a entrada iluminada, o cemitério continua existindo ao longo do trajeto restante, fazendo com que, de acordo com nossas associações costumeiras, tudo volte ao "normal". Oras, lugares soturnos precisam de baixa iluminação e clima mórbido.

Para o leitor que acredita estar deparando-se com uma história de terror mal contada, engana-se. Portanto, se isso o fez sentir alívio, continue a ler. E se rompeu com suas expectativas, é melhor parar por aqui. Eis a dica de alguém exigente, como creio que você seja, caro amigo.

A descrição de tal clima sombrio - e, no Rio de Janeiro atual, causador de mais espanto - é importante para entrarmos na questão concreta a que esse texto vem tratar.

Enfim, vinha Alberto caminhando pelo longo trajeto de meio quilômetro, por volta da 00:00h. Saltou do ônibus, passou pelos 100 metros iniciais e deu início, portanto, aos milhares de centímetros aqui já climatizados. Para os que são menos tementes, toda a escuridão e falta de almas vivas, pode ser um bom atrativo na hora de namorar. Não era estranho, para ele, encontrar, vez ou outra, um carro parado e - pasmem, isso não é contra as leis da física - fazendo movimentos repetitivos forçadamente. Entretanto, naquele dia, foi um caso um pouco mais curioso.

Existia sim, mais ou menos no mesmo ponto em que todos param, um carro. Porém, ao contrário do rotineiro, Alberto podia ouvir de muito, muito longe, os gritos prazerosos da mulher. Inicialmente, quando começou a perceber, ao longe, pareceram-lhe urros de desepero e toda a caracterização fantasiosa de sua mente, com relação aquele local, não o fez pensar na associação ao prazer. Para ele, pareciam gritos de dor.

Rapidamente, sua mente levou-o a pensar em algum crime a ser cometido e, como aproximavam-se os gritos conforme passavam as listras amarelas que dividem a pista, que agora ele podia observar, o medo passou a tomar conta de suas divagações e a impressão de tentativa de homicídio se tornava cada vez mais clara, quanto mais pensava naqueles gemidos coitados. À medida que ia chegando mais perto do carro, suas ideias faziam-lhe querer pensar em um jeito de ajudar aquela pobre mulher vitimada.

Ao perceber as onomatopéias produzidas pelo som dos amortecedores do carro e reparando nos vidros embaçados, o sino da estupidez soou aos ouvidos. Pensou no como foi burro em desesperar-se tanto. Ao fim e ao cabo, havia duas pessoas aproveitando de forma bastante efusiva, todas as qualidades que aquele trecho de rua poderia proporcionar-lhes.

Riu. E imaginou o quão engraçado era o fato de um casal estar praticando o princípio do nascimento, bem ao lado do local preferido para o culto aos mortos e às suas almas.

Relevou, então, a sua hipótese de assassinato, ao ouvir um último grito - esse, mais forte e vibrante que todos os outros, que o fizeram chegar à conclusão a que o leitor já deve ter chegado.
Afinal de contas, o sexo, a paixão, o gozo, nada mais é que uma morte em vida. Nada mais é que o assassinato mútuo de dois corpos incandescentes e úmidos em chamas. O gozo é doloso e culposo. É o fastígio do suicídio do outro. É morte e ressurreição em um só.


¹Origem grega da palavra orgasmo. Fonte:
http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=orgasmo

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Oração do Andarilho

Destino nosso que estas aí,
Despretensão seja o teu nome,
Que o acaso seja o teu reino,
Que as vontades ora sejam feitas, ora não,
Assim em dores, como em amores.

A ventura nossa de cada dia, nos dai hoje,
Perdoai os nossos deslizes,
Assim como nós o perdoamos pelas peças pregadas,
Não nos deixei sentir a estagnação,
Livra-nos do premeditado.
Pois bem,
- Vivamos!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Da Série: Ouvidos Alados [3ª edição]

- Poxa, me dá esses pães aí!
- Lógico que não, já comeu os teus. Amigos, amigos, negócios à parte.
- Poxa, é pra levar pro meu filho.
- Teu filho é tão guloso assim?
- Não, só o meu marido. Meu marido é bem GRANDE!
- Mas, tamanho não é documento.
- Não é documento, mas é ALIMENTO!

terça-feira, 14 de abril de 2009

Da tristeza comparativa da própria história.

Daquele tempo,
Que havia um tempo,
De muito tempo,
Pra se jogar.

Havia um tanto,
E no entanto,
Curvou-se à vida,
Não-linear.

Tempo de pranto,
Pranto do intento,
Não há rebento pra se amar.

E só num canto,
Tornou-se o espanto,
Angústia viva,
nó jugular.

Já não há santo,
E não assento,
Nenhum viver pra musicar.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Controvérsias da Existência.

No princípio, era o verbo: CRIAMOS um Deus. Logo em seguida, fizemos com que ele nos criasse. No fim das contas, somos apenas criaturas de nós mesmos.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Considerações sobre nós.

O silêncio é como os homens: egoísta, narcisista e absoluto. Até que a voz doce da mulher irrompe, e o subverte naquilo que não foi.







Foto: http://anacarolinalimabraga.files.wordpress.com/2008/12/391525.jpg

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Consideração Carnavalesca

Experimente tirar a arte de um porta-estandarte e terá um simples "homem-placa".

Coisas do Carnaval...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Da Série: Sabedoria Automobilística Contestável.

Frase:"Amigo é igual sol, só aparece quando o tempo está bom". Que, na verdade, era: "A_igo é _gu_l sol, _ó a_are_e q_and_ o tem_o est_ bom".

Carro: Escort XLR.


A exemplo de Artur Xexéo, colunista de "O Globo", eu também não me contento em ler as sábias [sic!] frases contidas nos automóveis e apenas extrair a informação que ela quer passar. Provavelmente - visto que eu acredito num grau minimamente crítico do leitor desse blog - , caros amigos, vocês já devem ter reparado nas ambiguidades [agora sem trema, por favor!] presentes em todas - ou quase todas - essas mensagens. Como exemplo, podemos tomar a clássica "Não sou dono do mundo, mas sou filho do dono". O cristão diria, facilmente, que o dono é deus [opto pela letra minúscula, retirando a parcialidade judaico-cristã desse post], o ateu ironizaria, associaria ao presidente da Google. Provavelmente o viciado em informática apontaria Bill Gates e o mais modista pensaria: - "Barack Obama"?
Com a lida hoje, não foi diferente. Eu sei que alguns me tacharão de chato, sistemático e muitos pararão quando entenderem a proposta mas, do Xexéo, ninguém fala.
A primeira informação é óbvia e funciona assim, no cérebro : "Amigo [Não qualquer amigo, o seu amigo. Uma terceira pessoa, que não identificamos, na posição de amigo] é igual sol, só aparece quando o tempo está bom" [O tempo está bom: aaaah, entendi... Só quando a gente tá com dinheiro é que os amigos aparecem...Engraçado...].
Isso tudo comumente, lógico. Agora, experimente manter o sentido de impessoalidade ao "amigo" e varie o sentido de "tempo bom". Inicialmente, o SEU amigo só aparece quando o SEU tempo está bom. Mas, não há indicações de que o tempo está bom para si. Sendo assim, o amigo pode muito bem aparecer, segundo a frase, quando o tempo DELE está bom. Se isso ocorre, porquê reclamar do amigo, justamente no carro, pra todo mundo ver?
Além disso, meus queridos leitores, quem faz do tempo, climaticamente falando, algo bom? O próprio sol, não? Pois então, se o tempo estiver bom pro seu amigo e o próprio astro é quem adjetiva o tempo nesse caso, o SEU tempo pode estar, sim, muito bom, graças ao seu amigo.
Convenhamos ainda que, com uma frase dessas no próprio carro, acaba-se fazendo uma péssima auto-propaganda[se estiver errado, eu uso a desculpa de 2012]. Se a impessoalidade for retirada e qualquer amigo só aparece quando o tempo está bom - isso na primeira idéia, prontamente extraída - o dono da frase acaba qualificando-se na mesma posição e, sinceramente, eu não ia querer ter um amigo assim.
Agora, pense bem, num amigo seu, como "O Sol". Confesso que seria um saco ser amigo do Luis XIV mas, pensem num amigo próximo,utilizando a palavra "amigo" para referir-se aos dois gêneros. Se o sol é algo que pode te deixar tão quente, tão quente, ao ponto do desespero ou, simplesmente, mantém a vida de alguns corpos e a sua, eu não me incomodaria que meu "amigo-sol" fosse uma morena, de 1,59M, linda e inteligente.
Finalmente, se o "SOL-AMIGO" aparece quando o tempo firma, pode não ser nada além de um churrasquinho na piscina com os outros amigos espaciais.

Da Série: Ouvidos alados [2ª edição].

Conversa vai, conversa vem... Ambos ao computador, cada um no seu, óbvio. Vê-los dividindo tecnologia era como se pudessemos idealizar duas crianças dividindo o último pedaço de chocolate, sem terem nenhum tipo de conflito.
Um deles abre o youtube, acha qualquer vídeo, clica e minimiza a página. Ao notar a demora para a execução, maximiza a mesma e verifica a mensagem de "retirado por violação dos direitos do autor", ou algo parecido, e diz:
-Droga! Maldito youtube! Não me deixa ouvir o vídeo.
O outro diz:
-Droga! Maldita tecnologia! Me permite ouvir isso e ter que ficar quieto.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Silhuetas

Só hoje pude perceber como são as belas as imagens de silhuetas bailando no ar. Silhuetas reais, que desenvolvem qualquer assunto sobre a luz que não está. Sobre a luz que já tiveram tal dia, mas que agora se sente falta. Sob quase nenhuma luz.
Se há uma coisa que eu passei a apreciar, neste 14 de janeiro [que me perdoe, mas minha silhueta escreve diante desses famosos "dias que não são" e que cada um utiliza o critério que bem entender para defini-los] é a dança desvairada do rosto que não há, do som que sai da boca que não se move, dos corpos que se perdem facilmente com o farfalhar das folhas do coqueiro.
Pois que é um grande segredo. Diferentes na forma, iguais na motivação, no objetivo.
Talvez nós tenhamos a silhueta do outro. Elas são tão humanas.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Efeitos psicológicos.

Reticente. Deveras reticente ele se encontrava, com um sorriso malicioso e sutil em seu canto direito da boca. Levantou-se do sofá, apanhou o isqueiro metálico que se encontrava sobre a mesa da sala de jantar, acendeu o cigarro. Deu duas tragadas e o apagou. Percebeu que mesmo a mínima ação continuada o incomodava. Ele estava reticente e fazia questão de estar assim, como quando fingimos estar mergulhados naqueles pensamentos profundos que fazem com que nem pisquemos, como quando fazemos um esforço para fingir algo espontâneo. No seu caso, o esforço o levava para a espontaneidade. Naquele dia em que as atribulações cotidianas pareciam não existir, ele se encontrava assim.
Resolveu fazer um café. Coador, pó, água e luz vermelha acesa. Café pronto, dirigiu-se ao quarto, recostou-se sobre a cama. Segurava a xícara branca com a mão direita e a esquerda, após servir de apoio à acomodação, agora se encontrava do outro lado do recipiente, como fazemos com chá ou o chocolate quente no inverno, para ajudar a aquecer. Deu sua primeira golada e começou a estranhar o fato de manter aquele mesmo pensamento fixo, aquela mesma gama de idéias que, juntas, garantiam a rigidez, a fixação do mesmo fim, desde a hora em que acordou.
Era indefinida a causa para ele, simplesmente sentia uma nostalgia gigantesca dentro da mente, acompanhada de nuanças tristes. Acompanhada de agonias desesperadoras, acompanhada de um sofrimento que trazia à tona uma solidão que vinha se acumulando, que vinha progredindo.
A tristeza provocava tais surtos de esquecimento naquele homem. Ao acordar, pensava em fatos isolados e demorava muitas horas do dia para lembrar-se de seu passado recente. As 17h00min daquele dia os efeitos psicológicos de tudo o que tinha vivido se foram, e a avalanche de idéias não via barreiras controláveis, como quando se ouve MPB4 cantando ao final de “Roda Viva”, do Chico. Os comandos elétricos daquele cérebro transformaram ¾ de segundo em algo como a velocidade da luz. Correu para o banheiro, de frente para o espelho: A barba grande. Na expressão, a sombra de uma ressaca de causar repúdio aos maiores boêmios cariocas. Olheiras negras, olhos fundos. Pele seca, ossos expostos. Fazia três dias que ele esperava. Fazia três dias que ele não fazia mais nada. Não trabalhava, não estudava, não saía de casa. Havia três dias desde a partida daquela mulher.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Da série: Ouvidos alados [1ª edição].

- [...] não saiu não. Se tivesse saído, eu tinha falado. Por favor, né? Você sabe que eu não roubo.
- Aaah, você tá com essa camisa do flamengo aí e vai dizer que não rouba?
- Pois é. Toda regra tem sua exceção, não é o que dizem? Mesmo que seja a sua regra.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

[Paranoias] de um [português] globalizado.


Era [janeiro]. Mas um [janeiro] desses atípicos, em se tratando de seu Rio. Aquele homem estava relaxado sobre a poltrona. Tomou o livro que se encontrava sobre a estante, no título: "[memórias póstumas de brás cubas]"; enquanto muitos [leem] [O Código da Vinci], ele preferia os clássicos.

Sempre foi daqueles que se importavam com a [literatura] de forma [extraescolar], não fazia [ideia] da causa disso, muito menos parou pra analisar sua situação. Simplesmente era. Não que acreditasse em cara[c]terísticas inatas, pra falar a verdade, as desconsiderava. É que tinha preguiça, e ao fim de tudo, não tinha argumentos nem pra contrariar, nem pra concordar. Simplesmente, não sabia a razão.

Guardara o livro. Por hoje era só, não [aguentava] mais ler.

Era 1º de janeiro e, se a leitura não ajuda, recorre aos escritos. Retoma o de um dia antes e recorda-se.

Recorda-se que todas as palavras entre colchetes que havia grafado, eram futuro um dia antes, eram presente naquele momento.

Os que [veem] acham estranho. Ele, era contra. Aquilo atrapalhara a evolução natural da língua. Mas, enfim, regras são regras. Contrariado, com um sorriso amarelo, ele exalta o novo acordo ortográfico.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Sobre as obviedades da vida.

O óbvio não existe.
Ele só se torna óbvio depois que você o descobre, ou que te fazem descobrir. Antes disso era pura incógnita.


quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Natale Hilare.




Ele está prestes a sair, véspera de Natal, 17:00h.

- E essa sacola? É o quê?

Ele pensa e sente toda a confusão do momento. O expressar sentimental o deixava encabulado e a pergunta, da forma como foi feita, o fazia crer que uma resposta já era esperada.

- O que você acha que é? Respondeu ele.
- O presente dela?
- Se você sabia, porquê perguntou?
- Eu não sabia, só deduzi.

Ele recolhe a sacola, confere os bolsos. No de trás, à direita, a identidade, no frontal, à esquerda, dinheiro e chave. Ultrapassa a porta e pensa:

- Pergunta maliciosa. Espírito zombeteiro, esse do Natal.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Simulações de amor.




Andava pelo meio da rua, 23:30h marcava o meu relógio do relativismo. Acabara de vê-la:

- Foi como se a sua cintura possuísse correntes elétricas e eu tivesse posto a mão, sem medo. A atração das terminações nervosas das pontas dos dedos levavam ao começo da morte em vida, que era inevitável. E foi ali que o paradoxo cotidiano se fez. Inevitável seria, pois, em qualquer outra situação. Naquela, não.