
sábado, 31 de julho de 2010
Desencontros

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Dia Cinza
O céu amanheceu azul, com o mesmo azul radiante dos últimos cinco dias. Dias de festa, de calor, de música e corpos dançantes pipocando por aqui e ali. Cores, muitas cores, na avenida, nas ruas, no céu, nos jardins pisoteados, nas fantasias reveladoras, nos olhos foliões. E lá se foi o carnaval, deixando rastros em alguns corações, marcas em alguns pés e sujeiras em algumas ruas. E hoje é dia de cinzas.
Amanheci tranqüila, nem cansada, nem triste, nem desbotada. Nem tão cinza quanto as cinzas nas testas dos cristãos, nem tão azul quanto o firmamento cintilante sobre o mar. Nem tão pouco com saudade do feriado, nem um pesar sequer. Amanhecer sozinho, como amanhecem os arlequins e as colombinas depois do baile, como os travestis bonitos que se enfeitaram mais que o costume, como os garis presos nas vassouras na madrugada. Tomei um banho gelado. De repente, fez-se um enorme silêncio em torno de mim. E eu gostei. Envolvida no som dessa ausência, não da solidão, mas do estar assim, sem ninguém por perto depois de passar dias entre tanta multidão, senti um prazer como o de voltar de uma viagem, como se estivesse fora de casa há tempo, quase uma saudade de mim.
Dia de cinzas - lá fora o mundo descansa, desabado em camas e sofás. Aqui dentro, uma alegria, leve, serena. Ainda bem que o carnaval acaba.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
040
Acidentes acontecem. Uns são graves, outros nem tanto. Comigo foi do segundo tipo. Ninguém morreu. Mas poderia ter acontecido, inclusive comigo.
E se eu morresse, de repente, naquela tarde de segunda-feira, no começo do mês de outubro, sem nem poder comemorar as festas de fim de ano?
Sem contar pros meus amigos como a festa do Rosário foi linda, sem entregar meus trabalhos na faculdade ou sem poder abraçar minha mãe no fim de semana seguinte?
E se eu fosse, levando como minha última cena aquele vento azulado, com pessoas e bolsas caindo, gente gritando, criança chorando, ou depois de ver o céu azul estalado do lado de fora da janela do carro caído no chão?
E se eu deixasse esse mundo depois de correr para não perder o meu trem que me levaria ao fim, sem nem comer, sem direito a uma última refeição digna da santa ceia?
E se aquele ônibus caído rolasse mais que o impossível e me tirasse daqui, num piscar de olhos, sem antes eu ter dito a todos os meus amigos que eu os amava, sem dizer ao meu namorado o quanto ele é importante na minha vida, sem abraçar minha irmã gordinha e fazer cosquinhas até ela chorar de tanto rir, sem comemorar o aniversário de 80 anos da minha vó em novembro, sem ser fotografada para uma exposição, sem dançar uma salsa em Cuba e um tango
O mundo continuaria girando, a vida seguiria.
Eu, somente, não estaria aqui. E de onde estivesse, lamentaria.
Por tudo que não fiz, por tudo que não quis, por tudo que não pude aprender.
Mas agora que eu sei que acidentes realmente acontecem, pretendo não perder mais nenhuma gota de vida que pingar em meus lábios. Poderá ser a última. Vai saber...
quinta-feira, 21 de maio de 2009
A próxima poesia
Corro. Em direção ao nascente. O sol se põe lá atrás, entre a paisagem de pedras e céu laranja do Rio de Janeiro-fevereiro-maio.
Penso algumas palavras, na próxima coisa que irei escrever, pode ser daqui a pouco quando voltar para casa, ou daqui a um mês, quando a inspiração deixar. Não que ela não esteja comigo, a dona inspiração. Sempre está. Mas deixo-a calada pelo cansaço ou mesmo pela preguiça de escrever, seja lá o que for. Mas às vezes vem uma palavra e fica pulando na minha testa, batendo no céu-da-boca, quase me implorando: pelo amor das deusas, me escreva!
E lá vou eu, vencendo o sono, a dor no omoplata direito, a miopia sem lentes, vou enfrentar o papel, a caneta, a tela luminosa que me deixa vesga de tanto escrever, ler, escrever. E ela sai suave, feliz, quase com um suspiro aliviado de quem fez o que devia. A última poesia. A que saltava como pulga coçando meus pensamentos, a que gritava inquieta dentro do meu estômago, no peito, nos olhos arregalados durante o silêncio. Foi-se.
Agora posso descansar. E que fique claro: a uma criança faminta e a uma poesia afoita não se deve dizer não.
quinta-feira, 5 de março de 2009
Hoje ele não vem
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Acredite
Enquanto se desistia do sonho
O dia veio e acabou com tudo:
Com a escuridão, com o medo e com a fúria
Destruiu a vontade de fugir para sempre
Enquanto se acreditava na noite
As estrelas caíram no meu chão
Formaram um tapete de luz
Brilharam tanto, até cegar os olhos
Até fazer a alma brilhar outra vez
E meio assim, sem saber de nada
querendo entender um pouco de tudo,
É que acontece do coração perceber
Que alguma coisa é diferente
Não se sabe como, nem onde, nem por quê
Não se sabe
Apenas sente que deve acreditar
E acredita.
E enquanto se desistia da vida
Os sonhos vieram e devolveram o brilho
Devolveram a vida
Devolveram o amor perdido
E mesmo sem entender,
Acredito.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Quer ser meu amigo?
Em tempos passados fazíamos amigos olhando nos olhos, abraçando, trocando confidências e guardando segredos. E só considerávamos amigos mesmo aqueles que, depois de anos de histórias, aventuras, choros e gargalhadas, continuavam sabendo dos nossos segredos e aceitando nossos defeitos. E por duas vezes, alguém que nunca vi, que nunca abracei, nunca olhei nos olhos, me diz: posso ser seu amigo?
Ah, maldita tecnologia! Claro que eu queria ter realmente 613 amigos como consta, mas a verdade é que tenho uns dois ou três. E eles sabem o que fiz aos 15 anos, aos 20 e aos 25. E sabem o que faço agora.
Então, me perdoa se vou magoá-lo, mas digo não! Não quero ser sua amiga. Posso querer depois que nos encontrarmos e conversarmos um dia inteiro até o sol se pôr e a lua se encher da gente. Posso querer depois que descobrir que gostamos das mesmas cores e não acertamos nas escolhas dos filmes. Posso querer sim, ser sua amiga, depois que chorar uma tarde inteira contando as dores que andam me atormentando. E vou querer, certamente, quando sentir que “nossos santos bateram” e que parece que nos conhecemos há muito tempo. E quando nossos olhares se entenderem e não precisar mais de palavras para saber o que queremos dizer um ao outro.
Mas por enquanto, assim, só de orkut e msn não dá. Você daí e eu de cá, sem nem bem saber a cor dos seus olhos... esqueça! Amizade é mais que isso. Não dá pra ser diferente. Paciência. Experimenta sair do PC e dar uma voltinha na praça...
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Sobre a saudade que há
O pior quando se sente saudade
é perceber a crueldade do tempo e da distância
Que faz o calor dos abraços se perder
Faz a lembrança do olhar esmaecer
E a sensação do toque transformar-se em vento.
O pior de sentir saudades
É o silêncio eternizado em canções ou lágrimas
É a vontade de falar naquela hora
Uma palavra que nunca mais será dita
Pois está para sempre perdida na incapacidade de ser.
Sentir saudade nem sempre dói
Ainda mais quando se aprende a viver distante
Quando se tem amigos e amores ausentes
Quando se deixa a casa da mãe para viver só
Quando se compreende o sentido das ausências
Quando nos acostumamos com as batalhas de um só guerreiro
Quando se tem mais amor que apego
Aí, sim, aceitamos sentir essa falta
E não a deixamos doer.
Mas sentir saudade é não ver só a lua
Mas um mundo que poderia ser melhor
- ou não.
E mesmo que não se sofra, mesmo que não seja tão ruim
O pior da saudade é a incerteza
De que um dia ela será passado e lembranças bobas
O pior é não saber.
E não sabendo o que virá,
Não sabendo o que será,
A espera é quase uma morte
É um risco que se corre
De nunca deixar de ser só saudade.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Todos os meses são Janeiro
Seria imensamente feliz se todos os meses
Todas as semanas
Todos os dias
Fossem como janeiro.
Voando entre as borboletas, azuis ou não
Rezando diante do mar – Odoyá!
Tomando banho de chuva
Sonhando com o dia em que os meninos serão todos iguais.
Seria poesia da vida
Fazer-se feliz como os pequenos
Com coisas simples, leves, encantos breves
De sambas, de noites, de mar...
Então entenderia todas aquelas canções que ouvi sem saber
Todos os poemas que decorei sem querer
Todos os nãos que falei sem porquê.
Entenderia as sereias, os peixes e baleias
Entenderia os navios que se rendem
E a alegria do jardim ao avistar o beija-flor.
Se fosse somente uma semana o ano inteiro
Se fosse assim, agosto e fevereiro
Seria bom.
Não.
Seria lindo.
Como chuva caindo sobre os lábios
Como o pôr-do-sol no Arpoador.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Aqueles dois de novo
- Você tem inveja de alguém?
- Inveja? Eu?
- É, inveja. Ah, invejinha boa, sem maldade...
- Talvez... de Deus.
- Por quê? Inveja de Deus?
- Ah, sei lá, foi o que me veio à cabeça. Imagina... Poseidon, deus dos mares! Deve ser bom: “E aí, o que você faz?” “Ah, eu sou o deus desse marzinho aí.” hehehe.
- Hum???
- Tá bom. Do Juliano. Tenho inveja do Juliano.
- É mesmo? E por quê?
- Não sei. Você só perguntou se tinha inveja de alguém, não o porquê.
- Tá, mas tô perguntando agora. Por que do Juliano?
- Ele está sempre feliz.
- ...
- Já percebeu?
- Engraçado...
- Quê?
- Perguntei pra ele de quem ele tinha inveja...
- E ele?
- Falou que de você!
- !!!
- ...
- Engraçado.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Caminhadas
Cortar caminhos. Adoro cortar caminhos. Não sei se já lhe aconteceu de se cansar de passar sempre pelo mesmo lugar, a caminho de casa, da escola ou do trabalho. Ficar entediado com as mesmas coisas no lugar de sempre, “a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores...”. Eu me canso. Por isso, às vezes, mudo o caminho, troco as ruas, mudo de esquina, passo pelo outro lado... só pra sair da rotina. Desde menina já tinha a necessidade de caminhos diferentes. Mas quando se cresce em cidade pequena não se tem muitas possibilidades. Então, quando voltava a pé para casa depois da escola, eu alternava entre o caminho de cima, a rua do Hospital, e o de baixo, à beira do rio.
Hoje mudo os caminhos por razões maiores que simplesmente quebrar a rotina. Ando pensando muito e dar voltas estimula a imaginação. Também preciso de um tempo só comigo, sem olhar na cara de ninguém, atravessando as ruas sem precisar dizer oi, voar alto entre os carros e prédios, falando sozinha, sorrindo, chorando, sem ter que dar explicações. Uma caminhada em homenagem à solidão. Uma desculpa para andar pelo desconhecido. Uma descoberta. Simples vontade de ficar na rua, exposta às ações do vento e do sol, dos olhares, da indiferença, do preconceito, da dúvida. Exposta às ações dos próprios sentimentos.
Às vezes tudo o que a gente precisa é não chegar
E nessas voltas cheias de vontades e revoltas, tenho medo de me perder. Viajar tanto a ponto de esquecer que existo e pode ter alguém esperando por mim. Talvez um recado na secretária eletrônica, um chuveiro, uma cama quente, um barulho leve de casa da gente. Porque só é bom ficar na rua quando sabemos que há para onde ir. Saber que demorar- se lá fora é um jeito de recuperar as forças antes de entrar no mesmo elevador e abrir a mesma porta, com a chave de sempre. É bom para pensar, lembrar, esquecer, inventar, falar besteiras e bobagens no próprio ouvido, criticar o próprio erro, reconhecer os próprios talentos. Sentir a própria solidão. Entre pessoas e pensamentos, descobrir-se capaz de reinventar a estrada, desvendar novos sonhos entre ruas e paredes desconhecidas. Refazer a rota, desviar, dar meia- volta, desistir, insistir, investir, continuar... “Deixe –me ir preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar”. Quem nunca precisou ir por aí, procurando um outro encanto, um sorriso, um canto, jeito de ser feliz de novo?
E vamos indo, fazendo do corpo a morada, o lar, o porto seguro, fazendo da vida um eterno ir e vir. Viagens, longas ou curtas, estradas tortuosas, tranqüilas, calçadas, avenidas, ônibus, aviões... caminhos demais. Sentir o sol, a lua nascendo, mundo ao redor. E uma certeza: chegar é voltar para você mesmo. Estar no lugar de onde partiu, lá dentro onde a vida começa. E qual o nosso destino senão a própria existência?
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
O Vidro de Azeitonas
Ela sempre viveu com mulheres. Foi criada com a mãe e a avó, o pai morreu quando ainda era criança. Aprendeu a fazer de tudo sem depender de uma opinião ou permissão masculina, como a maioria de suas amigas que dependiam do poder do sim e do não dos seus pais. Também descobriu formas de se proteger sozinha, nunca precisou de um irmão para bater nos moleques que lhe torravam a paciência na rua. Uma vez deu com o bico de sua bota na canela de um menino na saída da escola e este nunca mais ousou puxar seus cabelos e lhe chamar de bruxa.
Homem em casa só tinha de vez em quando, nos dias em que o irmão mais velho, que nunca morou com elas, vinha visitar a família. Era uma festa! Aquele macho era tratado como rei, tinha todos os mimos, comida servida no prato, roupa limpa e cheirosa todos os dias, só faltavam colocar-lhe a comida na boca. Em compensação, trocava todas as lâmpadas queimadas, consertava janelas quebradas, capinava o mato que invadia o jardim, arrumava o chuveiro, lavava o carro e, claro, abria todos os vidros de azeitona, palmito, milho... Coisas que todo homem sabe fazer. Às vezes recebiam também visitas de algum namorado da mãe, ou seu, que ia tomar um café, almoçar no domingo, e como pagamento era preciso carregar uma caixa pesada, ajudar na mudança dos móveis...
Sempre pensava em como seria chato o mundo sem homens. De quem iria reclamar? Sobre o que falaria com as amigas? Embora estivesse sozinha, já se preparava para um novo relacionamento que estava por vir. Teve alguns namoros bem sucedidos, outros nem tanto, mas fugia da idéia de casamento. Na verdade, era louca para se casar, mas tinha que fazer o tipo “mulher moderna”, completamente independente, que paga as próprias contas, sai sozinha no fim de semana, bebe (socialmente), e só pensa em ter um único filho, depois dos 35. E para ser coerente, tinha que dizer que não pensava em se casar. Pelos menos não tão cedo. E agora, sozinha no apartamento de
Sempre ouviu amigas reclamando dos maridos, das meias jogadas no chão, da tampa do vaso sanitário sempre respingada, dos ataques de má educação à mesa, dos jogos de futebol na tv. Lembrava de alguns namorados, como eram folgados e mimados, dependentes. Se ela, mulher, fazia de tudo para não depender de nada e de ninguém, por que cargas d’água dedicaria sua vida a um homem dependente, incapaz de levar o copo até à pia e pendurar a toalha molhada no seu devido lugar? Era demais. Por outro lado, como viver sem, digamos assim, as coisas que só eles poderiam lhe oferecer?
Sentada à mesa da cozinha, quase desfalecida, chorava feito criança abandonada, as mãos sobre os cabelos horrorosamente desfeitos, uma bruxa. Olhava fixamente para a lata de azeitonas, o molho quase queimando no fogo, o chuveiro queimado no banheiro esperando uma visita inesperada. Soluçava. Não tinha forças para se levantar e chamar o porteiro, nem coragem para ir até o vizinho. “Por que esta droga de tampa não se abre sozinha? Aaaabre-te, sésamo!!!” Enlouquecia. Certamente o guisado ao molho de azeitonas ficaria sem azeitonas. E mais do que nunca, agora ela estava certa: como faz falta ter um homem em casa...
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Pelas linhas mal expressas do ser
- O que significa isso?
- Isso o quê?
- Ora, não se faça de desentendi...
- Tudo bem, tudo bem....humm... eu não sei.
- ????
- ....
- ......?
- De não saber, ora. A gente não sabe um monte de coisas, normal. Eu não sei. Só isso.
- Só?
- É. Mais alguma pergunta?
- Você me irrita, sabia?
- É, tô sabendo. Sempre soube. Mas você...
- Opa! Vê lá o que vai dizer.
- Eu adoro assim mesmo.
- ....
- Mais alguma pergunta?
- Não. Por quê?
- Porque você só me faz perguntas.
- Eu? Sério?
- É, sempre. Pergunta até quando tá afirmando.
- Ah, não, eu não faço isso, faço?
- Aí, tô falando!Pode ser sinal de alguma insegurança vinda de algum fato mal processado que ficou no seu inconsciente e vem à tona quando você se sente em situações de perigo, ou quando se sente testado, sei lá, tipo, quando está diante da minha pessoa... Freud explicaria.
- Freud? Você faz terapia?
- Não, mas queria fazer. Mas você precisa mais do que eu.
- Ah, é?
- ......
- ....... ???
- O que significa isso?
- Eu perguntei primeiro.
sábado, 3 de janeiro de 2009
Melmuara - A triste história da menina que vivia de ler

Melmuara passava as tardes entres os livros que tinha
Melmuara também brincava no jardim e corria pela terra. Nos dias de chuva ia com os colegas da rua para o barranco mais escorregadio para deslizar na lama, acabando com a limpeza de suas roupas e alimentando sua mais pura felicidade. Mas a menina, assim que chegava em casa, tomava um banho e corria para seus livros. Era espantosa a dedicação que oferecia às palavras. Um amor que poucos compreendiam. No mínimo, achavam-na muito inteligente, o que compensava o fato de ter um nome tão estranho. Melmuara. Ninguém nunca ouvira um nome daquele na vida. Nem mesmo nas histórias Melmuara encontrara alguém com seu nome. Mas não se cansava de procurar.
Apaixonou-se pela primeira vez pelo Visconde de Sabugosa, aquela espiga de milho falante criada por Monteiro Lobato. Tinha sonhos encantadores com o personagem. Sonhava em se casar com ele e juntos fugiriam para a Terra do Nunca, onde o tempo se perdia e os meninos nunca deixavam de ser. Viveria feliz para sempre entre fadas, piratas e poções mágicas. Para ela os trovadores cantariam apaixonados e os príncipes lutariam pelo seu amor. Melmuara dormia pensando no dia em que se transformaria
Os pais de Melmuara acharam estranho o silêncio da menina durante todo o dia. Adoravam o fato da filha passar horas lendo, sem perturbar ninguém, sem dizer um A que não fosse para perguntar o significado de alguma palavra nova. Melmuara então ganhou um dicionário e não perguntou mais. Mas o silêncio da menina um dia incomodou o irmão mais novo e perceberam que Melmuara não falava mais. Porque não queria. Preferia ler. E começou a escrever. Deixa a menina, gente, isso é um geniozinho!... E deixaram Melmuara no seu mundo de ilusões.
E ela foi embora. Depois de uma briga ferrenha com o Visconde, Melmuara partiu para bem longe, ninguém pôde dizer pra onde, pois não deixou recado, não mandou notícia. Terra do Nunca? Pasárgada? Algum Palácio distante? Lua? País das Maravilhas? Suas histórias se multiplicavam, e só assim conseguiam saber alguma coisa dela. Tentavam decifrar o que escrevia, mas era abstrato demais. Mesmo assim guardavam, na esperança de que um dia ela voltasse e contasse tudo com mais detalhes.
Um dia Melmuara voltou. Fizeram uma festa. Cantaram, perguntaram tanta coisa que a garota ficou tonta. Descansou um pouco e quando se sentiu melhor, saiu para ver como as coisas estavam. Para a menina que cresceu entre livros de poesia e contos de fadas era um absurdo ver o que acontecia agora. Ficou chocada! Sentiu tanta falta dos seus livros, que mal conseguia falar com as pessoas. Ganhou um computador. Pra quê!?! Quando descobriu que os sorrisos dos príncipes haviam se transformado em “rs rs”, que as gargalhadas das bruxas eram “kkkkkkkk’ e que os beijos mais calorosos de seus sonhos viraram simplesmente “bjs”, Melmuara descobriu que estava no mundo errado. Destruíram todas as palavras que ela conheceu e poucos agora falavam de poesia. As histórias que contavam tinha muito mais sangue e tiro do que princesas e anões. Melmuara não conseguiu se adaptar e fugiu novamente. Voltou para o mundo dos seus contos, onde as palavras eram ditas por inteiro e onde os sonhos podiam se multiplicar. De longe ficou olhando os meninos e meninas que riam em forma de rs... eles estavam se esquecendo de ler.
Melmuara, que sempre teve vergonha de seu nome, descobriu que ele significava “doce liberdade”. E então entendeu que nascera para ser livre dentro de suas ilusões, sendo a amada amante, a princesa, a bruxa, a fada, a guerreira. Melmuara ficou triste pelas crianças que não tinham livros e não sabiam ler. Continuou escrevendo. E agora dizia coisas diferentes, que as pessoas ainda não compreendiam perfeitamente. E nem queriam entender. Na verdade, as pessoas nem liam mais. E por isso Melmuara acabou morrendo.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
A Flauta Mágica

O homem dos olhos cor de mel vive entre os bancos da praça do metrô e a marquise da lojinha de roupas ao lado da farmácia. Em seu terno velho e sujo, passa o dia sentado ao lado de alguns sapatos velhos e outras coisas. À noite fica na calçada, olhando desconfiado para as pessoas que passam. Há algum tempo que o conheço. Posso dizer que já faz parte da minha vida. Não tem nome, nunca ouvi sua voz, mas já me olhou nos olhos várias vezes. Acho que não me reconhece, talvez nem perceba que somos vizinhos. Dele eu não sei nada, nem tampouco ele sabe de mim. Mas convivemos bem assim, no silêncio dos olhares entre o preto e o mel.
Um dia ele apareceu de banho tomado, cabelo raspado. Era fim de ano e alguém deve tê-lo levado pra casa. Talvez algum familiar saudoso, um amigo ou até mesmo um voluntário de uma ONG. Deram- lhe roupas novas, um pouco mais informais. Ele abandonou o paletó velho e agora usava camisa de malha. Parecia mais jovem e mais bonito. Não mais feliz.
Certo dia encontrou, entre a grama suja e o cinza do chão, uma flauta. Poderiam ter-lhe oferecido como doação (as pessoas e suas manias de dar coisas velhas para os pobres!), mas acredito que ele a tenha encontrado. Pegou-a com cuidado e limpou bastante. Guardou dentro do bolso da calça e passou o dia pensando no que fazer com aquilo. Pensava? Passaram-se semanas. Todos os dias, ao acordar, olhava a flauta. Antes de dormir, a limpava. Seus olhos cor de mel fitavam o instrumento com um misto de adoração e medo. De onde viria aquilo? E por que ele a encontrara? Um mês depois decidiu colocá-la na boca pela primeira vez. Como um menino que descobre a delícia de um sorvete, descobriu que poderia fazer barulho. E foi perdendo o medo. A cada dia, um minuto a mais de sons desarranjados e sem sentido.
Certa vez, depois que já estava à vontade fazendo seu som, algo diferente aconteceu. Enquanto tocava, passaram pela mente daquele homem algumas lembranças. Enquanto a flauta fazia barulho, momentos de quando era jovem surgiam como um sonho e desapareciam quando a flauta cessava. Via os rostos dos parentes perdidos, ouvia as vozes das mulheres que conheceu, lembrava das músicas de que mais gostou. Tudo, tudo o que havia se perdido no poço frio do esquecimento, tudo que a loucura e o desamparo levaram para longe do ser. Ao se dar conta do poder da flauta, começou a tocá-la mais vezes ao dia. Como uma droga, usava-a para sair do silêncio e da tristeza que lhe dominavam. Espantava os passantes com a melodia errante que invadia o sol de meio-dia da cidade turbulenta e quente. Os carros corriam à sua frente e o homem apenas tocava sua flauta. Fugia do mundo. Encontrava sua história.
Assim foi que o mendigo transformou-se no flautista da calçada. Passou a tocar quase o dia todo. Não queria parar nem para comer. O instrumento tornou-se seu amuleto, seu anjo da guarda, seu cachorro de estimação. Tinha o poder de levá-lo de volta à sua vida, perdida entre tantas outras. Ela lhe falava de sua identidade, do cidadão que havia se esquecido de ser. Ela lhe mostrava sua infância, o passado com os pais numa cidade pequena, o trabalho outrora perdido, a doença que aos poucos foi lhe transformando num marginal. Descobriu que não era um homem mau e que não sabia onde estava. Descobriu também que um dia foi amado e que ainda procuravam por ele. Pelos minutos em que tentava fazer música na pequena flauta, encontrava a si mesmo. Quem poderia imaginar que o pedaço de madeira teria poderes mágicos? E se então podia lembrar, por que tudo se apagava novamente quando o barulho acabava? A felicidade de lembrar de tudo durava pouco tempo, e logo que parava, os olhos cor de mel do homem do banco do metrô voltavam a se perder no infinito. Onde será que estava aquela mente depois do surto de memória? Para onde fugiram seus pensamentos? Onde a flauta buscava suas recordações?
A mim e ao outros passantes, nada mais que um mendigo tocando uma flautinha. Mas era um ser humano que agia em busca da própria identidade, do sentido de estar ali. Tocava, na esperança de um dia poder guardar todas as lembranças e poder sair do lugar onde a sociedade o lançara. Queria saber o que estava acontecendo. Mas a flauta tinha o poder limitado. Assim como a lâmpada, que só concede 3 desejos; assim como o encanto da Cinderela, que terminou à meia-noite. Nada além de alguns minutos e alguns pensamentos. A flauta não daria mais que isso. E o meu vizinho, aquele homem dos olhos cor de mel, continuará sentado debaixo da marquise toda noite, olhando as pessoas que passam acima dele, com medo de olhar, com medo de que lhe peça alguma coisa. Mas não, ele não pede nada, ele é um homem bom. Apenas toca sua flauta e pede a ela, no silêncio do seu coração, que as lembranças fiquem. E a flauta pede a qualquer deus, com sua canção, que a vida do homem se transforme num conto de fadas. Pois só assim ele poderia ser salvo e ser feliz para sempre.
