
Sempre quis me ver, mas não no espelho. Queria ser capaz de me enxergar fora do meu corpo. Não falo de experiências espirituais. Minha alma e meu corpo não se dividiriam. Eu estaria completa vivendo e observando a mim mesma. Comportamentos e ações são sempre movidos por olhares alheios. Queria ser alheia a mim por um momento.
A nossa vida é sempre mediada pelos outros. Vemos mais os outros do que nós mesmos já que não somos capazes de andar seguindo nosso próprio reflexo. Acho que me conheceria melhor se pudesse me ver mais. Se pudesse me ver na hora em que as coisas acontecem. O meu olho fechando ao se encontrar com outra boca. Ele abrindo e ficando arregalado ao final do beijo. Queria ver a minha face preguiçosa no momento em que o relógio desperta, ainda com a luz apagada. E o modo como meus cílios colam quando encosto a cabeça no travesseiro. A cara de boba quando tenho frio na barriga e o olhar perdido quando meus pensamentos começam a agir. Queria me ver de costas. O modo engraçado de andar correndo. Sei que vídeos já me mostraram algumas dessas vivências, mas queria o tempo real. Talvez seja por isso que inventaram o amor. Já que não podemos nos observar nos pequenos detalhes, esta experiência privilegiada fica para os outros. E talvez amemos nos outros o que não vemos em nós. É claro que ver alguém andando na rua não é nenhum privilégio, mas compartilhar a vida de perto é raro. Tudo bem que em transportes públicos lotados somos postos forçadamente próximos uns dos outros e diminuímos a distância apropriada para convívio social entre estranhos. Mas, no amor é diferente. A motivação é espontânea. Ver os olhos de perto, um sorriso se formando, as lágrimas escorrendo. A peculiaridade de cada gesto.Vemos no outro o que não podemos ver em nós. E nos permitimos ser vistos como não nos vemos. Dessa cegueira pessoal temos a melhor visão: o olhar do outro emitindo nosso reflexo. Talvez este seja nosso melhor espelho.