sábado, 3 de janeiro de 2009

Melmuara - A triste história da menina que vivia de ler


Melmuara passava as tardes entres os livros que tinha em casa. Uma infindade. Para o seu tamanho, a estante que ocupava meia parede parecia um muro enorme de conhecimento e ela queria decifrá-lo antes de crescer. Leu todos os pequenos textos dos livros didáticos de literatura, todas as legendas dos desenhos dos livros de biologia e todas as orelhas dos romances que ainda não poderia compreender. Ganhava livros nos dias das crianças, nos aniversários e no Natal. Sempre queria livros. Era uma criança viciada.

Melmuara também brincava no jardim e corria pela terra. Nos dias de chuva ia com os colegas da rua para o barranco mais escorregadio para deslizar na lama, acabando com a limpeza de suas roupas e alimentando sua mais pura felicidade. Mas a menina, assim que chegava em casa, tomava um banho e corria para seus livros. Era espantosa a dedicação que oferecia às palavras. Um amor que poucos compreendiam. No mínimo, achavam-na muito inteligente, o que compensava o fato de ter um nome tão estranho. Melmuara. Ninguém nunca ouvira um nome daquele na vida. Nem mesmo nas histórias Melmuara encontrara alguém com seu nome. Mas não se cansava de procurar.

Apaixonou-se pela primeira vez pelo Visconde de Sabugosa, aquela espiga de milho falante criada por Monteiro Lobato. Tinha sonhos encantadores com o personagem. Sonhava em se casar com ele e juntos fugiriam para a Terra do Nunca, onde o tempo se perdia e os meninos nunca deixavam de ser. Viveria feliz para sempre entre fadas, piratas e poções mágicas. Para ela os trovadores cantariam apaixonados e os príncipes lutariam pelo seu amor. Melmuara dormia pensando no dia em que se transformaria em poesia. E sonhava com as mais métricas canções.

Os pais de Melmuara acharam estranho o silêncio da menina durante todo o dia. Adoravam o fato da filha passar horas lendo, sem perturbar ninguém, sem dizer um A que não fosse para perguntar o significado de alguma palavra nova. Melmuara então ganhou um dicionário e não perguntou mais. Mas o silêncio da menina um dia incomodou o irmão mais novo e perceberam que Melmuara não falava mais. Porque não queria. Preferia ler. E começou a escrever. Deixa a menina, gente, isso é um geniozinho!... E deixaram Melmuara no seu mundo de ilusões.

E ela foi embora. Depois de uma briga ferrenha com o Visconde, Melmuara partiu para bem longe, ninguém pôde dizer pra onde, pois não deixou recado, não mandou notícia. Terra do Nunca? Pasárgada? Algum Palácio distante? Lua? País das Maravilhas? Suas histórias se multiplicavam, e só assim conseguiam saber alguma coisa dela. Tentavam decifrar o que escrevia, mas era abstrato demais. Mesmo assim guardavam, na esperança de que um dia ela voltasse e contasse tudo com mais detalhes.

Um dia Melmuara voltou. Fizeram uma festa. Cantaram, perguntaram tanta coisa que a garota ficou tonta. Descansou um pouco e quando se sentiu melhor, saiu para ver como as coisas estavam. Para a menina que cresceu entre livros de poesia e contos de fadas era um absurdo ver o que acontecia agora. Ficou chocada! Sentiu tanta falta dos seus livros, que mal conseguia falar com as pessoas. Ganhou um computador. Pra quê!?! Quando descobriu que os sorrisos dos príncipes haviam se transformado em “rs rs”, que as gargalhadas das bruxas eram “kkkkkkkk’ e que os beijos mais calorosos de seus sonhos viraram simplesmente “bjs”, Melmuara descobriu que estava no mundo errado. Destruíram todas as palavras que ela conheceu e poucos agora falavam de poesia. As histórias que contavam tinha muito mais sangue e tiro do que princesas e anões. Melmuara não conseguiu se adaptar e fugiu novamente. Voltou para o mundo dos seus contos, onde as palavras eram ditas por inteiro e onde os sonhos podiam se multiplicar. De longe ficou olhando os meninos e meninas que riam em forma de rs... eles estavam se esquecendo de ler.

Melmuara, que sempre teve vergonha de seu nome, descobriu que ele significava “doce liberdade”. E então entendeu que nascera para ser livre dentro de suas ilusões, sendo a amada amante, a princesa, a bruxa, a fada, a guerreira. Melmuara ficou triste pelas crianças que não tinham livros e não sabiam ler. Continuou escrevendo. E agora dizia coisas diferentes, que as pessoas ainda não compreendiam perfeitamente. E nem queriam entender. Na verdade, as pessoas nem liam mais. E por isso Melmuara acabou morrendo.

Um comentário:

Danyel de Argolo Cardoso disse...

"E então entendeu que nascera para ser livre dentro de suas ilusões".

Liberdade plena não existe aos olhos de terceiros.