quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Caminhadas


Cortar caminhos. Adoro cortar caminhos. Não sei se já lhe aconteceu de se cansar de passar sempre pelo mesmo lugar, a caminho de casa, da escola ou do trabalho. Ficar entediado com as mesmas coisas no lugar de sempre, “a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores...”. Eu me canso. Por isso, às vezes, mudo o caminho, troco as ruas, mudo de esquina, passo pelo outro lado... só pra sair da rotina. Desde menina já tinha a necessidade de caminhos diferentes. Mas quando se cresce em cidade pequena não se tem muitas possibilidades. Então, quando voltava a pé para casa depois da escola, eu alternava entre o caminho de cima, a rua do Hospital, e o de baixo, à beira do rio.

Hoje mudo os caminhos por razões maiores que simplesmente quebrar a rotina. Ando pensando muito e dar voltas estimula a imaginação. Também preciso de um tempo só comigo, sem olhar na cara de ninguém, atravessando as ruas sem precisar dizer oi, voar alto entre os carros e prédios, falando sozinha, sorrindo, chorando, sem ter que dar explicações. Uma caminhada em homenagem à solidão. Uma desculpa para andar pelo desconhecido. Uma descoberta. Simples vontade de ficar na rua, exposta às ações do vento e do sol, dos olhares, da indiferença, do preconceito, da dúvida. Exposta às ações dos próprios sentimentos.

Às vezes tudo o que a gente precisa é não chegar em casa. Demorar-se mais do lado de fora, sentindo a cor do céu nos cílios e lábios, respirando a fumaça cinza da modernidade e descobrindo o silêncio que há nesse inferno que se chama vida moderna. Tem dias em que a tranqüilidade do lar é mais irritante que a correria do centro da cidade; um travesseiro pode ser mais ensurdecedor que qualquer sirene enlouquecida; uma sala vazia pode ser mais fria que qualquer esquina de agosto. Um telefone que não toca quando se espera, a janela que não mostra nada, uma pia estragada pingando, gota a gota, o desejo de fugir dali, um relógio que apita de hora em hora lembrando que o tempo já vai sem você, uma voz que insiste quando você não quer ouvir, pilhas e mais pilhas de papéis e livros que você não sabe por que estão em sua vida. Uma coleção de motivos para não voltar logo pra casa. Uma razão e tanto para imaginar uma vida diferente enquanto caminha. Talvez encontre por essas novas estradas um outro jeito de encarar o próprio caminho.

E nessas voltas cheias de vontades e revoltas, tenho medo de me perder. Viajar tanto a ponto de esquecer que existo e pode ter alguém esperando por mim. Talvez um recado na secretária eletrônica, um chuveiro, uma cama quente, um barulho leve de casa da gente. Porque só é bom ficar na rua quando sabemos que há para onde ir. Saber que demorar- se lá fora é um jeito de recuperar as forças antes de entrar no mesmo elevador e abrir a mesma porta, com a chave de sempre. É bom para pensar, lembrar, esquecer, inventar, falar besteiras e bobagens no próprio ouvido, criticar o próprio erro, reconhecer os próprios talentos. Sentir a própria solidão. Entre pessoas e pensamentos, descobrir-se capaz de reinventar a estrada, desvendar novos sonhos entre ruas e paredes desconhecidas. Refazer a rota, desviar, dar meia- volta, desistir, insistir, investir, continuar... “Deixe –me ir preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar”. Quem nunca precisou ir por aí, procurando um outro encanto, um sorriso, um canto, jeito de ser feliz de novo?

E vamos indo, fazendo do corpo a morada, o lar, o porto seguro, fazendo da vida um eterno ir e vir. Viagens, longas ou curtas, estradas tortuosas, tranqüilas, calçadas, avenidas, ônibus, aviões... caminhos demais. Sentir o sol, a lua nascendo, mundo ao redor. E uma certeza: chegar é voltar para você mesmo. Estar no lugar de onde partiu, lá dentro onde a vida começa. E qual o nosso destino senão a própria existência?

2 comentários:

Antônia Burke disse...

"Chegar é voltar pra si mesmo"
Você conseguiu descrever perfeitamente a dureza de encararmos a nós mesmos de vez em quando.
Adorei o texto, adorei o blog.
Voltarei mais vezes.
Beijos

Pedro disse...

Pois é, tudo que a gente tem é o corpo. O resto é provisório.