quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

A Flauta Mágica


O homem dos olhos cor de mel vive entre os bancos da praça do metrô e a marquise da lojinha de roupas ao lado da farmácia. Em seu terno velho e sujo, passa o dia sentado ao lado de alguns sapatos velhos e outras coisas. À noite fica na calçada, olhando desconfiado para as pessoas que passam. Há algum tempo que o conheço. Posso dizer que já faz parte da minha vida. Não tem nome, nunca ouvi sua voz, mas já me olhou nos olhos várias vezes. Acho que não me reconhece, talvez nem perceba que somos vizinhos. Dele eu não sei nada, nem tampouco ele sabe de mim. Mas convivemos bem assim, no silêncio dos olhares entre o preto e o mel.

Um dia ele apareceu de banho tomado, cabelo raspado. Era fim de ano e alguém deve tê-lo levado pra casa. Talvez algum familiar saudoso, um amigo ou até mesmo um voluntário de uma ONG. Deram- lhe roupas novas, um pouco mais informais. Ele abandonou o paletó velho e agora usava camisa de malha. Parecia mais jovem e mais bonito. Não mais feliz.

Certo dia encontrou, entre a grama suja e o cinza do chão, uma flauta. Poderiam ter-lhe oferecido como doação (as pessoas e suas manias de dar coisas velhas para os pobres!), mas acredito que ele a tenha encontrado. Pegou-a com cuidado e limpou bastante. Guardou dentro do bolso da calça e passou o dia pensando no que fazer com aquilo. Pensava? Passaram-se semanas. Todos os dias, ao acordar, olhava a flauta. Antes de dormir, a limpava. Seus olhos cor de mel fitavam o instrumento com um misto de adoração e medo. De onde viria aquilo? E por que ele a encontrara? Um mês depois decidiu colocá-la na boca pela primeira vez. Como um menino que descobre a delícia de um sorvete, descobriu que poderia fazer barulho. E foi perdendo o medo. A cada dia, um minuto a mais de sons desarranjados e sem sentido.

Certa vez, depois que já estava à vontade fazendo seu som, algo diferente aconteceu. Enquanto tocava, passaram pela mente daquele homem algumas lembranças. Enquanto a flauta fazia barulho, momentos de quando era jovem surgiam como um sonho e desapareciam quando a flauta cessava. Via os rostos dos parentes perdidos, ouvia as vozes das mulheres que conheceu, lembrava das músicas de que mais gostou. Tudo, tudo o que havia se perdido no poço frio do esquecimento, tudo que a loucura e o desamparo levaram para longe do ser. Ao se dar conta do poder da flauta, começou a tocá-la mais vezes ao dia. Como uma droga, usava-a para sair do silêncio e da tristeza que lhe dominavam. Espantava os passantes com a melodia errante que invadia o sol de meio-dia da cidade turbulenta e quente. Os carros corriam à sua frente e o homem apenas tocava sua flauta. Fugia do mundo. Encontrava sua história.

Assim foi que o mendigo transformou-se no flautista da calçada. Passou a tocar quase o dia todo. Não queria parar nem para comer. O instrumento tornou-se seu amuleto, seu anjo da guarda, seu cachorro de estimação. Tinha o poder de levá-lo de volta à sua vida, perdida entre tantas outras. Ela lhe falava de sua identidade, do cidadão que havia se esquecido de ser. Ela lhe mostrava sua infância, o passado com os pais numa cidade pequena, o trabalho outrora perdido, a doença que aos poucos foi lhe transformando num marginal. Descobriu que não era um homem mau e que não sabia onde estava. Descobriu também que um dia foi amado e que ainda procuravam por ele. Pelos minutos em que tentava fazer música na pequena flauta, encontrava a si mesmo. Quem poderia imaginar que o pedaço de madeira teria poderes mágicos? E se então podia lembrar, por que tudo se apagava novamente quando o barulho acabava? A felicidade de lembrar de tudo durava pouco tempo, e logo que parava, os olhos cor de mel do homem do banco do metrô voltavam a se perder no infinito. Onde será que estava aquela mente depois do surto de memória? Para onde fugiram seus pensamentos? Onde a flauta buscava suas recordações?

A mim e ao outros passantes, nada mais que um mendigo tocando uma flautinha. Mas era um ser humano que agia em busca da própria identidade, do sentido de estar ali. Tocava, na esperança de um dia poder guardar todas as lembranças e poder sair do lugar onde a sociedade o lançara. Queria saber o que estava acontecendo. Mas a flauta tinha o poder limitado. Assim como a lâmpada, que só concede 3 desejos; assim como o encanto da Cinderela, que terminou à meia-noite. Nada além de alguns minutos e alguns pensamentos. A flauta não daria mais que isso. E o meu vizinho, aquele homem dos olhos cor de mel, continuará sentado debaixo da marquise toda noite, olhando as pessoas que passam acima dele, com medo de olhar, com medo de que lhe peça alguma coisa. Mas não, ele não pede nada, ele é um homem bom. Apenas toca sua flauta e pede a ela, no silêncio do seu coração, que as lembranças fiquem. E a flauta pede a qualquer deus, com sua canção, que a vida do homem se transforme num conto de fadas. Pois só assim ele poderia ser salvo e ser feliz para sempre.

2 comentários:

Danyel de Argolo Cardoso disse...

"Essa Mariana aí é covardia, cara."


Lindo!

Mariana Moreno disse...

lindo e comovente!