quinta-feira, 12 de novembro de 2009

040


Acidentes acontecem. Uns são graves, outros nem tanto. Comigo foi do segundo tipo. Ninguém morreu. Mas poderia ter acontecido, inclusive comigo.


E se eu morresse, de repente, naquela tarde de segunda-feira, no começo do mês de outubro, sem nem poder comemorar as festas de fim de ano?

Sem contar pros meus amigos como a festa do Rosário foi linda, sem entregar meus trabalhos na faculdade ou sem poder abraçar minha mãe no fim de semana seguinte?


E se eu fosse, levando como minha última cena aquele vento azulado, com pessoas e bolsas caindo, gente gritando, criança chorando, ou depois de ver o céu azul estalado do lado de fora da janela do carro caído no chão?

E se eu deixasse esse mundo depois de correr para não perder o meu trem que me levaria ao fim, sem nem comer, sem direito a uma última refeição digna da santa ceia?

E se aquele ônibus caído rolasse mais que o impossível e me tirasse daqui, num piscar de olhos, sem antes eu ter dito a todos os meus amigos que eu os amava, sem dizer ao meu namorado o quanto ele é importante na minha vida, sem abraçar minha irmã gordinha e fazer cosquinhas até ela chorar de tanto rir, sem comemorar o aniversário de 80 anos da minha vó em novembro, sem ser fotografada para uma exposição, sem dançar uma salsa em Cuba e um tango em Buenos Aires, sem conhecer a Bahia, sem ter tido um filho, sem ter tomado um banho de rio e sem ter desfilado no próximo carnaval?


O mundo continuaria girando, a vida seguiria.

Eu, somente, não estaria aqui. E de onde estivesse, lamentaria.

Por tudo que não fiz, por tudo que não quis, por tudo que não pude aprender.


Mas agora que eu sei que acidentes realmente acontecem, pretendo não perder mais nenhuma gota de vida que pingar em meus lábios. Poderá ser a última. Vai saber...

Um comentário:

Mariana Moreno disse...

pois é...
como eu li em um livro
" a vida vale a pena ser vivida intesamente"
nossos melhores podem ser os mais simples e corriqueiros...e a gente as vezes so se da conta disso qnd acha que nao vai te-los de novo
lindo texto!