terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Efeitos psicológicos.

Reticente. Deveras reticente ele se encontrava, com um sorriso malicioso e sutil em seu canto direito da boca. Levantou-se do sofá, apanhou o isqueiro metálico que se encontrava sobre a mesa da sala de jantar, acendeu o cigarro. Deu duas tragadas e o apagou. Percebeu que mesmo a mínima ação continuada o incomodava. Ele estava reticente e fazia questão de estar assim, como quando fingimos estar mergulhados naqueles pensamentos profundos que fazem com que nem pisquemos, como quando fazemos um esforço para fingir algo espontâneo. No seu caso, o esforço o levava para a espontaneidade. Naquele dia em que as atribulações cotidianas pareciam não existir, ele se encontrava assim.
Resolveu fazer um café. Coador, pó, água e luz vermelha acesa. Café pronto, dirigiu-se ao quarto, recostou-se sobre a cama. Segurava a xícara branca com a mão direita e a esquerda, após servir de apoio à acomodação, agora se encontrava do outro lado do recipiente, como fazemos com chá ou o chocolate quente no inverno, para ajudar a aquecer. Deu sua primeira golada e começou a estranhar o fato de manter aquele mesmo pensamento fixo, aquela mesma gama de idéias que, juntas, garantiam a rigidez, a fixação do mesmo fim, desde a hora em que acordou.
Era indefinida a causa para ele, simplesmente sentia uma nostalgia gigantesca dentro da mente, acompanhada de nuanças tristes. Acompanhada de agonias desesperadoras, acompanhada de um sofrimento que trazia à tona uma solidão que vinha se acumulando, que vinha progredindo.
A tristeza provocava tais surtos de esquecimento naquele homem. Ao acordar, pensava em fatos isolados e demorava muitas horas do dia para lembrar-se de seu passado recente. As 17h00min daquele dia os efeitos psicológicos de tudo o que tinha vivido se foram, e a avalanche de idéias não via barreiras controláveis, como quando se ouve MPB4 cantando ao final de “Roda Viva”, do Chico. Os comandos elétricos daquele cérebro transformaram ¾ de segundo em algo como a velocidade da luz. Correu para o banheiro, de frente para o espelho: A barba grande. Na expressão, a sombra de uma ressaca de causar repúdio aos maiores boêmios cariocas. Olheiras negras, olhos fundos. Pele seca, ossos expostos. Fazia três dias que ele esperava. Fazia três dias que ele não fazia mais nada. Não trabalhava, não estudava, não saía de casa. Havia três dias desde a partida daquela mulher.

3 comentários:

Mariana Moreno disse...

Lindo, Dani...
A ausência da pessoa amada muitas vezes nos leva à essência do que é "ser" humano... A solidão, os pensamentos, a nostalgia.... Ficamos ausentes ao sistema... Não contamos horas, afazeres, apenas vivemos dentro de nós mesmos sugando aquilo que restou do outro...

Mariana Simões disse...

Dias depois, não se sabe se cinco ou cem, entrou no ônibus, apressado. Passou pela roleta. Os olhares se cruzaram.
Agradeceu eternamente por ter sido abandonado por aquela outra mulher...

Uns partem, outros "são partidos". Sempre assim. Bom mesmo é quando transformamos a dor em poesia, ou qualquer coisa que seja de mais valia.

Juuh² Liberato disse...

Me fez chorar... lindo Nyell