sexta-feira, 24 de julho de 2009

Órgazo¹.

A rua na qual localizava-se a sua casa é daquelas em que ainda não há iluminação total, na parte da noite. Em seu início, sim, alguns postes, mas eles limitam-se a estar, justamente, entre o começo do caminho e o fim da entrada pertencente ao cemitério que nela existe. Ou seja, por mais estranho que isso possa parecer incialmente, ao longo de 500 metros, apenas 100, equivalentes ao lugar onde comumente se deposita aversão e medo, possui luz elétrica. Nos outros 400 metros, há apenas resquícios de luz dos postes da viela localizada do lado oposto; há um rio que transforma o que seria uma rua, em duas.

Tudo isso, inicialmente. Após a entrada iluminada, o cemitério continua existindo ao longo do trajeto restante, fazendo com que, de acordo com nossas associações costumeiras, tudo volte ao "normal". Oras, lugares soturnos precisam de baixa iluminação e clima mórbido.

Para o leitor que acredita estar deparando-se com uma história de terror mal contada, engana-se. Portanto, se isso o fez sentir alívio, continue a ler. E se rompeu com suas expectativas, é melhor parar por aqui. Eis a dica de alguém exigente, como creio que você seja, caro amigo.

A descrição de tal clima sombrio - e, no Rio de Janeiro atual, causador de mais espanto - é importante para entrarmos na questão concreta a que esse texto vem tratar.

Enfim, vinha Alberto caminhando pelo longo trajeto de meio quilômetro, por volta da 00:00h. Saltou do ônibus, passou pelos 100 metros iniciais e deu início, portanto, aos milhares de centímetros aqui já climatizados. Para os que são menos tementes, toda a escuridão e falta de almas vivas, pode ser um bom atrativo na hora de namorar. Não era estranho, para ele, encontrar, vez ou outra, um carro parado e - pasmem, isso não é contra as leis da física - fazendo movimentos repetitivos forçadamente. Entretanto, naquele dia, foi um caso um pouco mais curioso.

Existia sim, mais ou menos no mesmo ponto em que todos param, um carro. Porém, ao contrário do rotineiro, Alberto podia ouvir de muito, muito longe, os gritos prazerosos da mulher. Inicialmente, quando começou a perceber, ao longe, pareceram-lhe urros de desepero e toda a caracterização fantasiosa de sua mente, com relação aquele local, não o fez pensar na associação ao prazer. Para ele, pareciam gritos de dor.

Rapidamente, sua mente levou-o a pensar em algum crime a ser cometido e, como aproximavam-se os gritos conforme passavam as listras amarelas que dividem a pista, que agora ele podia observar, o medo passou a tomar conta de suas divagações e a impressão de tentativa de homicídio se tornava cada vez mais clara, quanto mais pensava naqueles gemidos coitados. À medida que ia chegando mais perto do carro, suas ideias faziam-lhe querer pensar em um jeito de ajudar aquela pobre mulher vitimada.

Ao perceber as onomatopéias produzidas pelo som dos amortecedores do carro e reparando nos vidros embaçados, o sino da estupidez soou aos ouvidos. Pensou no como foi burro em desesperar-se tanto. Ao fim e ao cabo, havia duas pessoas aproveitando de forma bastante efusiva, todas as qualidades que aquele trecho de rua poderia proporcionar-lhes.

Riu. E imaginou o quão engraçado era o fato de um casal estar praticando o princípio do nascimento, bem ao lado do local preferido para o culto aos mortos e às suas almas.

Relevou, então, a sua hipótese de assassinato, ao ouvir um último grito - esse, mais forte e vibrante que todos os outros, que o fizeram chegar à conclusão a que o leitor já deve ter chegado.
Afinal de contas, o sexo, a paixão, o gozo, nada mais é que uma morte em vida. Nada mais é que o assassinato mútuo de dois corpos incandescentes e úmidos em chamas. O gozo é doloso e culposo. É o fastígio do suicídio do outro. É morte e ressurreição em um só.


¹Origem grega da palavra orgasmo. Fonte:
http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=orgasmo

4 comentários:

Luiza disse...

Olha, você realmente tem futuro, hein.. (risos)
Muito bom, muito mesmo!
Eu fico até sem saber o que escrever ao ler um texto tão bem estruturado, com ideias tão bem encaixadas, com um português tão bem escrito...
Faço questão de sempre vir aqui e ler seus textos, vale toda a pena! Pra ser mais sincera, saio daqui querendo também escrever, escrever e escrever. Mas confesso que não teria imaginação (ou vivência, não sei rs) o suficiente para criar algo, ao menos, parecido.
Está de parabéns! :)

Beeijo.

Mariana Moreno disse...

Daniels, daniels...

adorável e ousado...

Parabéns!!!!!

Annie disse...

Só me dá orgulho esse menino. =]
Lembranças de um Jardim da Saudade...rs

Zé Gabriel F. disse...

Pôr vida e morte, sexo e homicídio num texto, e fazer com q essas coisas (q pra maioria das pessoas são coisas dicotômicas)façam sentido é tão Poético que chegaria a assustar.

-Mas não assusta.
Eu diria que, de acordo com a construção do conto e outras babaquices técnicas q a gente aprende na faculdade, é uma das suas melhores...mas eu já disse isso um milhão de vezes.
e não vou dizer mais...
não precisa.

ninguém diz que Machado "foi melhor nisso" ou que Drummond " fez melhor naquela" entende?
não precisa!

Primo, é o teu potencial criativo que me assusta!
parabéns!