terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Sobre aquilo que se lê


Terminar de ler um livro sempre foi estranho para ele. Um misto de felicidade e angústia por dar fim àquela motivação diária de saber o que vai acontecer na página seguinte.

Pode parecer exagero, mas sofria de uma espécie de depressão após a leitura. A única forma de se recuperar desse mal era encontrar uma nova história. Mas mesmo assim, algumas eram inesquecíveis. Ele se via dentro das folhas... As imagens, quase nunca presentes, se reinventavam na mente, como nos livros ilustrados que lia quando ainda era criança. Algumas vezes chegava a questionar o que os personagens fariam em seu lugar se de repente conseguissem ultrapassar os limites das linhas. Outras, se emocionava e desejava envolver seus amigos de papel em um confortante abraço. Para suprir esta carência causada pelo excesso de leitura, tentava transmitir aos amigos reais toda a experiência gratificante da história que acompanhou. E assim, descobriu mais um dos prazeres de se ler um bom livro: multiplicar conhecimento e sensações prazerosas de página em página...

Com isso aprendeu ainda mais, descobriu versões diferentes e olhares diferentes sobre o mesmo enredo. Mas além de tudo, percebeu que poderia revisitar os livros quando quisesse, como com um velho diário que provoca reações diversas quando reaberto. Percebeu como são volúveis e maleáveis os significados quando refletem parte do momento em que se vive. Percebeu como todos sempre serão livros-abertos, sem chaves para serem usadas quando se chega ao fim. Assim, amenizou aquela angústia e pode encontrar mais um espaço para cada história. Um espaço além da última folha, um espaço atemporal.

6 comentários:

Pedro disse...

Terminar um livro é realmente estranho. Principalmente quando o livro é bom. A história te prende de uma tal maneira e aquilo passa a ser tão real que é impossível que acabe ali, a vida daqueles personagens tem que continuar, a realidade nunca acaba.

Danyel de Argolo Cardoso disse...

Vidas fictícias baseadas em vidas reais e seus encargos.

Vidas reais baseadas em encargos da vida fictícia.

Vida baseada em vida.

Vida.

Mariana Moreno disse...

Danyel...
adoro seujeito poético de falar sobre poesia...
um show de metalinguística...
rs

Mariana Simões disse...

"A única forma de se recuperar desse mal era encontrar uma nova história. Mas mesmo assim, algumas eram inesquecíveis. Ele se via dentro das folhas..."

Lembrei de quando era criança e levava pra viagem de férias vários livros do Monteiro Lobato, pois era terrível acabar uma história e não ter outra pra desfrutar.

Adorei, Mari!

Mariana Simões disse...

"A única forma de se recuperar desse mal era encontrar uma nova história. Mas mesmo assim, algumas eram inesquecíveis. Ele se via dentro das folhas..."

Lembrei de quando era criança e levava pra viagem de férias vários livros do Monteiro Lobato, pois era terrível acabar uma história e não ter outra pra desfrutar.

Adorei, Mari!

Cristina disse...

Mari
Tava com saudade, passei no seu orkut e descobri hoje esse blog!

Excelente o texto!

Já pensou em pegar o diploma e seguir a carreira de escritora? Faz do jornalismo seu ganha pão e parte pra literatura! =]

Não acha chato ter que seguir as velhas regras dos sei lá quantos quês?!

beijos e queijos
Cris =*