quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Raspas de chocolate

Desde pequena se acostumou a ficar agarrada nas pernas da avó. Ainda mais se o barulho da batedeira anunciava: hoje é dia de bolo! Ovos, manteiga, açúcar e achocolatado.Para a menina, ingredientes como estes significavam mais do que uma receita de dar água na boca. Embaladas pelo cheiro doce que saía do forno, as duas conversavam sobre os mais suculentos pratos que poderiam existir. A menina ouvia atenciosamente os ensinamentos da avó, mas não anotava nada, mesmo tendo consigo um caderninho. A senhora não entendia o porquê. Ao final do dia, ela ia até à cabeceira da cama da neta e se deparava com folhas e mais folhas preenchidas por raspas de chocolate. Nenhuma palavra, nenhuma recomendação de cobertura, apenas rabiscos.A menina já sabia ler e escrever e por vezes surpreendia a avó ao recitar poemas de sua própria autoria. Mas quando se tratava de seu suposto caderninho de receitas, ela só fazia rabiscos achocolatados. Certo dia, a senhora resolveu perguntar por que a neta nunca escrevera nas folhas. A menina, preparando os dedos para preencher mais uma página, afirmou que para ela as letras eram mais distantes do coração do que o chocolate. Aquele cheiro, aquela cor e textura eram o melhor registro daquelas fatias de felicidade.

2 comentários:

Pedro disse...

Cada louco com a sua mania. rs

Danyel de Argolo Cardoso disse...

Hahahahaha...

Adorei o texto. Soou meio "prazeres amelísticos".