quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Coisas do amor

Para suprir a carência de convívio social, recorria ao computador e ao rádio. Sempre nas madrugadas. O som do vento esvoaçando as cortinas, o tic-tac do relógio. Ouvidos e olhos atentos sempre em busca de uma ilusão de companhia. Nos últimos quatro meses, o rádio ficou para segundo plano. Eram horas e horas em um site de relacionamento. O nome de sua insônia era Max, um pseudônimo que ocultava a identidade de um homem de estatura mediana, 85 quilos não tão bem distribuídos e uma paixão pelo cineasta Almodóvar.
Não passava um dia sem que eles conversassem. A timidez dela não permitiu que trocassem fotos, falassem ao telefone ou descobrissem muitas informações sobre o outro. Ela gostava de se preservar. De certa forma, existia uma espécie de excitação no mistério. Depois de muita insistência, ela aceitou marcar um encontro. No dia combinado, pediu a companhia da amiga por receio de ser vítima de uma furada. Foi com a blusa vermelha mencionada no dia anterior, mas levou uma branca na bolsa para o disfarce em caso de decepção. Fitou o homem de blusa amarela com listras laranjas pela fresta da porta do banheiro do restaurante. Não gostou do que vira. Meio nerd, barrigudo. Pelos trejeitos, lhe lembrou um autista. Exatamente duas horas se passaram até que saíram do banheiro e foram para casa. Inconsolável, sentiu arrependimento, por ter aceitado o convite, por entrar no site, por causar mal a ele, por estar só e por viver. No dia seguinte,ligou o rádio na nova estação. Cada lágrima e desconforto do dia anterior foi atenuado pela voz do locutor, que começou a relatar sua história pessoal de um desencontro, de um amor e de sua única vontade de falar com ela. Fale com ela. Era essa sua recomendação para todos os apaixonados que tem a oportunidade de estar na presença da mulher amada. Fale com ela sobre seus sentimentos, fale com ela sobre seus desejos, fale com ela seja qual for seu estado. E a mulher, mesmo sem nunca ter falado com ele, reconheceu suas palavras,sua suposta menção ao filme favorito e sua delicadeza. Tomou o primeiro táxi que passou e se dirigiu ao estúdio. Ela falou com ele: lhe envolveu nos braços e lhe beijou. O nerd se tornou um intelectual, a barriga um amortecedor e o autismo, recolhimento introspectivo.

2 comentários:

Danyel de Argolo Cardoso disse...

É tudo uma questão de projeção.

Pedro disse...

Nem tudo é perceptível pela aparência.