segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Porque não deixei de ser...


Todo mineiro tem uma montanha dentro do peito
que faz a vida mais tortuosa, uma subida sem fim.
Todo mineiro carrega na ponta do nariz
o cheiro do café passado nas tardes de chuva,
da terra molhada de orvalho,
das comidas feitas no quintal da vó.
Todo mineiro é um pouco fechado,
tem o olhar entre as montanhas,
olha mais pra dentro de si que para o horizonte inalcançável.
Talvez por isso sejamos tão intensos,
avessos à superficialidade que se espalha pelos litorais.
Nascer em Minas é carregar na alma a palavra do poeta,
a reza da benzedeira,
o som dos tambores negros,
a ladainha da procissão,
a moda de viola.
Nascer em Minas é nascer marcado para ser denso, quieto e atento.
E mesmo saindo de Minas, a montanha permanece lá dentro
sendo escalada a cada dia, a cada olhar, a cada momento.
E todo mineiro sabe que, mesmo quando “Minas não há mais”,
no fundo pulsa o sentimento eterno, inesquecível, das terras Gerais,
das brincadeiras de rua e missas de domingo,
das conversas na calçada e fruta colhida no pé, coisas que já não são...
É, Minas, a gente sabe,
Quem nasce aqui nasce “emprosado”,
vive e morre como se tudo fosse poesia, cantiga e oração...

Um comentário:

Danyel de Argolo Cardoso disse...

Montanhas com trilhas tortuosas.

Ladeiras por muitas vezes íngremes.