sábado, 17 de janeiro de 2009

Esmalte descascado

Entrou no metrô carregada de papéis na mão. Resultado de seu esquecimento, que a fez deixar a pasta na casa da amiga dois dias antes. Ao se acomodar no assento, colocou a bolsa sobre a barriga, empilhou as folhas e abriu o livro. Acabara de chegar ao segundo capítulo.
Analisando cada palavra minuciosamente, de súbito, deixou-se distrair pelo barulho de três jovens conversando ali perto. Tentou retomar a concentração, mas ao olhar novamente para o livro, fitou suas mãos sobre as folhas e observou as unhas vermelhas se despindo. Na mesma tarde hesitou em participar de uma reunião por não querer transmitir desleixo. No entanto, receber status de fútil ou paranóica seria um conflito ainda mais agravante. Tentou vencer o incômodo, ao menos conseguiu disfarçá-lo.Mas ali no metrô, a situação piorou quando foi surpreendida pela ex manicure, que atualmente move um processo contra sua avó. Por um momento pensou que talvez fosse melhor exibir ainda mais aquele esmalte saindo, para que a mulher desistisse da causa e voltasse atrás. Afinal, a neta anda com as unhas daquele jeito. Aquela menina vaidosa e obcecada por boa aparência. A coisa deve estar feia mesmo. Imaginou também que a manicure estivesse se vangloriando de seu trabalho, considerando que se ela tivesse feito aquelas unhas, o esmalte teria durado por muito mais tempo. As mãos agitadas que tentavam se esconder, se livraram da mulher duas estações depois. Apesar do metrô ainda estar cheio, ficou apenas a menina lutando para se camuflar de si mesma. Olhar para a própria mão com o esmalte saindo a incomodava mais do que saber que os outros também estavam vendo. Quando ela conseguia ocultar a região mais crítica de seu próprio campo visual, se permitia arriscar mais alguns parágrafos.
O esmalte descascado a atormentava como os piores sentimentos que abrigava dentro de si. A inveja, a ira, o preconceito e o orgulho. Por mais que tentasse camuflá-los, eles sempre
apareceram para lembrá-la o que é “ser” humana. Às vezes se mostravam na frente de todos, e este nunca foi o problema. Difícil era aceitar as próprias mazelas no espelho. Encarar o pior de si mesma.

2 comentários:

Pedro disse...

O pior é que as pessoas talvez nem reparassem, mas isso era uma coisa que ela não podia esconder de si.

Mariana Simões disse...

Nossa, é uma coisa realmente terrível! Pra mim chega a ser desesperador. rsrs
Muito bom!