sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Foda Lisérgica


O tempo é liquido
escorrendo entre suas coxas
Vazando pela cama, desembocando na rua
o dia está vazio, cinza.

O dia compôs um blues, um samba delirante
, outro dia talvez
mas esse, eu me perdi, afogado no tempo.
tua boca, apoteose, coliseu.
correnteza perene, imutável, livre e decassílaba
pavilhão vermelho e branco
Beijo, como que se fizesse um juramento: Não beijar mais nada além dela.
Mentira, claro...

Delega-me o dever de te dizer o que fazer.
abuso dele.
gosta.

Ventre, um quê de sagrado e profano
misticismo mais antigo que a cor do céu
que o gosto do mar.
O ventre é um deus.

dentro, desfaço-me em mil pedaços
como se cheirasse o pó das estrelas
tomasse ácido do firmamento
gosto, gosta, goza.
voa, salta, muda.
o tempo que escorre me carrega, me afogando na sua maré
Náufrago entre o branco de tuas coxas
semi-deus, semi-deusa, semi-nus, semeando.
O tempo é liquido, e tudo é vaporoso, derrete.
brisa, sussurro ao longe. Vastidão.

sábado, 31 de julho de 2010

Desencontros


- Eu estava lhe esperando.
- Eu não falei que viria. Falei?
- Ah!! Você e suas perguntas....
- Mas esperou por que?
- Não deveria?
- Eu não disse que viria. Não precisava.
- Sim, mas eu esperei porque eu quis. Só. Eu que quis. Você viria de todo jeito.
- É.
-Então pronto. Já posso ir.
- Mas já?
- Já. Você já chegou. Posso ir agora.
- Tá...
- Até.
- Quando?
- Sei não. Nem dá pra saber.
- Verdade.
- E você, vai pra onde?
- Não vou. Fico aqui. Esperando.

domingo, 2 de maio de 2010

Sonhos


Acordou assustada achando que o despertador não havia funcionado. Esqueceu-se que por mais um dia não precisaria dele. Conferiu a hora. Na mesa de cabeceira um porta-retrato de madeira denunciava um sorriso que ela mesma não via há tempos. Ao lado, um bloco de anotações rabiscado. Tarefas não feitas, traços geométricos e o nome repetido inúmeras vezes como num mantra. Levantou-se e abriu a janela. Nuvens embaralhadas formavam desenhos incompreensíveis no céu. A xícara do café da manhã do dia anterior continuava na mesa do computador dividindo espaço com farelos abrigados por formigas agitadas.
Jogou-se na cama novamente desejando que ela balançasse como se estivesse em um colchão d’água. Olhou o relógio mais uma vez. Quis mexer nos ponteiros, acelerá-los, voltá-los. Olhou para o ventilador, rápido e seguro, com rotações firmes e quase silenciosas. Olhou fixadamente para ele, depois fechou os olhos e se viu num daqueles brinquedos de parque de diversões, rodando, rodando, rodando constantemente em movimento eterno. Quis ser a nuvem. Quis ser a formiga. Quis ser o ponteiro. Quis ser o ventilador. Quis ser ela mesma na foto com sorriso largo. Quis ser o movimento. Quis dormir novamente para sair da inércia porque quando sonhava não podia tocar o chão. Nos sonhos ela podia voar e ser mais do que formiga, ventilador e ponteiro. Ela podia ser a nuvem,e junto com outras nuvens ser incompreensível e admirável. Nos sonhos ela podia tocar o céu.